O que falar de Quíron em Touro?
Primeiramente, é preciso desmistificar o mito, se é que isso faz algum sentido na literalidade da coisa.
No relato mitológico, Quíron é ferido e passa a curar os outros enquanto convive com a própria dor incurável. Ao pensarmos no Quíron astrológico, a primeira imagem que nos vem à mente é o famoso arquétipo do Curador Ferido. Mas, para compreendê-lo, precisamos nos atentar especificamente ao ferido: o indivíduo que sente medo se isolando na caverna.
Após o ferimento, Quíron adota uma postura defensiva. Ele se isola do mundo em uma caverna distante e chega a recusar o atendimento e o cuidado aos outros. Ele se anestesia para conseguir dormir e, assim, não sentir dor.
A grande chave aqui não é ele se tornar curador no mesmo ponto em que foi machucado, mas sim o fato de que não há no mundo ninguém capaz de curar a sua ferida. Apesar de deter toda a habilidade para sanar o sofrimento alheio, ninguém pode fazer nada por ele, nem ele mesmo.
Isso é fundamental, pois expõe onde mora a solidão de Quíron em nosso mapa natal. É uma dor que sentimos sozinhos: reativa, constante, estridente. Muitas vezes demoramos para notar a sua presença, porque ela está lá, guardada e escondida de nós mesmos por nossas fugas e ópios cotidianos.
Quirón em Touro: A Tortura da Estabilidade
Costumo sempre associar Quíron à palavra ‘dor’, conectando esse conceito diretamente às palavras-chave essenciais do signo. Ao cruzarmos essa dinâmica com Touro, o cenário ganha contornos específicos:
Touro é o símbolo astrológico da estabilidade, do conforto e da segurança. É o estado da terra fixa em que podemos confiar e fincar alicerces. Touro busca e valoriza os prazeres, a beleza, a paz. Qualquer coisa que entre em seu caminho nessa busca, ele defende com seus chifres e seu corpo robusto. Apesar de pacífico, Touro é territorialista e preza pelo bem-estar do seu “rebanho”.
Tudo o que compõe essa natureza taurina é perenemente torturado quando adicionamos Quíron à conta:
- O signo que deveria priorizar a segurança passa a se sentir eternamente inseguro e instável no mundo.
- Gera-se uma busca desenfreada por um mínimo de conforto que parece nunca se consolidar, fazendo com que o indivíduo construa conforto para todos, menos para si mesmo.
Na tentativa de criar um planejamento ideal, seguro e estável, Quíron em Touro sacrifica justamente o que há de mais sagrado para o signo. É o mecanismo do: “Eu sacrifico os meus prazeres hoje em nome de uma segurança idealizada. Somente após erguer uma fortaleza perfeita terei permissão para, finalmente, desfrutar da vida”. A jornada se torna penosa porque o conforto idealizado, objetivo final deste aspecto, está sempre no futuro.
A Geração de 1976 a 1984
A última vez que Quíron esteve em Touro foi entre o final dos anos 70 e o início dos 80. O trânsito principal começou em 28 de maio de 1976 e se estendeu até 11 de abril de 1984. No entanto, por conta das retrogradações, tivemos duas breves exceções nesse intervalo em que ele mudou de signo: De 13 de outubro de 1976 a 28 de março de 1977: Quando recuou temporariamente para Áries; De 21 de junho de 1983 a 29 de novembro de 1983: Quando fez uma breve incursão por Gêmeos.

O cenário da última passagem de Quíron por este signo (entre 1976 e 1984) foi economicamente desastroso no Brasil. Vivíamos a explosão da dívida externa e o início de uma inflação galopante, onde não se sabia quanto custaria o pão na manhã seguinte. O salário perdia o poder de compra em questão de dias e os juros atingiam patamares alarmantes.
Essa geração cresceu vendo seus pais sacrificarem o próprio bem-estar para garantir o mínimo em um solo completamente arenoso.
Globalmente, o mundo testemunhava uma guinada conservadora e a ascensão do neoliberalismo econômico, marcada pelas eleições de Margaret Thatcher no Reino Unido (1979) e Ronald Reagan nos Estados Unidos (1981). Era o início de reformas rígidas e de uma forte narrativa de autossuficiência financeira.
Durante esse período assistimos ao nascimento da moda fitness. As primeiras academias populares despontam nos anos 70, popularizando o acesso aos treinos e transformando o esforço físico repetitivo em um novo hábito de “lazer urbano”. Já nos anos 80 nasce a febre estética, impulsionada pela explosão das fitas de aeróbica e pela exaltação de corpos hiper-definidos como sinônimo de sucesso, transformando roupas de ginástica em estilo cotidiano. O corpo é remodelado: atletas tornam-se modelos de capas de revistas, elevando ainda mais o padrão estético a algo sobrehumano.
A eclosão da epidemia de HIV, no início dos anos 80, trouxe um pânico generalizado quanto ao toque físico. Sob a premissa de que o contato com o outro transmitiria a doença, criou-se uma onda de culpa e medo sobre o corpo e o prazer sexual.
O filme original O Exterminador do Futuro estreou nos cinemas dos Estados Unidos em 26 de outubro de 1984. Ele expõe o medo da evolução tecnológica e traduz a força da máquina frente à fragilidade humana.
Por fim, o primeiríssimo amanhecer da revolução digital trouxe medos que feriam diretamente a necessidade de segurança tangível de Touro. O surgimento dos computadores despertou o pânico da obsolescência e do desemprego, sob o temor de que as máquinas pudessem substituir a força de trabalho humana e engolir a estabilidade financeira. Houve também uma nítida perda de tangibilidade e controle, já que dados valiosos, registros e até a contabilidade do dinheiro começaram a se tornar digitais (abstratos e invisíveis). O computador era visto com profunda desconfiança, despontando como uma ameaça à simplicidade da vida natural. Havia o temor de que o controle frio da máquina sobre o homem culminasse em uma inevitável desumanização .
O Ciclo de 2026 a 2034
O próximo trânsito começará em 19 de junho de 2026 e se estenderá até a sua saída definitiva em 05 de maio de 2034. Seguindo a mesma dinâmica astrológica, teremos duas breves exceções nesse intervalo em que ele mudará de signo: Ele volta temporariamente para Áries de 17 de setembro de 2026 a 14 de abril de 2027; e de 19 de julho de 2033 a 23 de outubro de 2033, ficará em gêmeos temporariamente
Agora, novas dores se formam neste mundo que ainda processa os lutos coletivos recentes. Ao olharmos para o cenário atual, os paralelos com o ciclo anterior são impressionantes:
A Instabilidade Geopolítica e Econômica: A transição global caminha a passos largos para uma nova dinâmica de Guerra Fria, com ameaças constantes de conflitos em larga escala que minam qualquer sensação de segurança duradoura. Na macroeconomia, vemos uma nova vertente neoliberal impulsionada pela ascensão global da extrema-direita, que vende uma promessa de prosperidade estritamente meritocrática em um mercado cada vez mais precarizado e voltado ao topo.
A Anestesia e o Controle do Corpo: Se nos anos 80 o controle vinha pela aeróbica, hoje ele acontece a nível químico e digital. Vivemos o auge da febre dos moduladores de apetite e emagrecimento (como o Ozempic e o Mounjaro), onde pessoas se dopam e colocam a saúde em risco em busca de um padrão estético. As redes sociais operam como a padronização definitiva do corpo perfeito, agora potencializada por filtros e inteligências artificiais que distorcem a própria noção de realidade material.
O Toque Virtual vs. O Corpo Físico: Assim como a epidemia de HIV gerou o medo do toque nos anos 80, a transição atual nos empurra para o isolamento digital. O excesso de telas e a virtualização das relações geram uma nova fobia do corpo a corpo, onde o prazer sensorial direto é substituído pelo consumo de aparências.
A Obsolescência do Trabalho e a Ameaça da Inteligência Artificial: Se nos primórdios da computação o temor girava em torno da automação mecânica, hoje a Inteligência Artificial avança sobre o intelecto, a escrita e a criatividade, gerando um pânico profundo de desemprego e da perda do sustento material. Diante de algoritmos que produzem sem interrupção, os indivíduos internalizam uma cobrança cruel, sentindo-se cronicamente culpados por não operarem na velocidade e na escala das máquinas.

O medo fantasmagórico de se tornar obsoleto da noite para o dia sabota o direito ao descanso, aprisionando o ser humano em um ciclo de hiperprodutividade ansiosa por puro instinto de sobrevivência.
Da moda à culinária, tudo o que é feito em casa, manufaturado ou artesanal, tornou-se artigo de luxo. Elementos que outrora formavam a base da vida humana, vêm sendo progressivamente terceirizados para as grandes corporações.
O novo luxo, afinal, é ter um casaco costurado pelas próprias mãos e comer tomates do seu jardim.
O digital (intangível) ganhou um espaço de importância imensurável. Ele engole o nosso cotidiano para criar mundos fictícios e imaginários. Ter tempo para habitar o presente, saborear uma refeição, desligar-se das telas e sentir o toque físico virou uma raridade.
A Contradição Taurina e o Caminho da Cura
Touro, em sua essência profunda, é o signo do tempo presente, da matéria e da tradição. Ele não habita o porvir nem o campo das possibilidades; ele vive no concreto. Com Quíron ali, o indivíduo projeta a promessa de felicidade em um futuro hipotético, pois o presente nunca parece seguro o suficiente. Isso transforma a experiência em uma grande contradição.
Quíron em Touro sente culpa em aproveitar a folga, torturando-se com a ideia de que deveria estar trabalhando o dobro para construir uma segurança que nunca chega. Sente-se profundamente ansioso quando tudo fica em paz, temendo que a calmaria seja apenas uma ilusão que precede o caos. Sente culpa toda vez que se alimenta bem, outro símbolo vital do signo, julgando que a estética precisa ser rígidamente preservada. E, paradoxalmente, sente culpa por não ter a estética perfeita, já que frequentemente se deleita em prazeres imediatos (como a comida) apenas para anestesiar as ansiedades crônicas em relação ao futuro.
O retorno de Quíron
Quem nasceu ao longo da última passagem desse asteróide por Touro enfrentará o chamado Retorno de Quíron, que acontece por volta dos 50 anos e meio. Estas pessoas, que agora colhem a crise pelo esforço desmedido investido em uma estabilidade inalcançável, enfrentam o burnout. São profissionais superqualificados, cercados de diplomas, mas que hoje habitam um mundo profundamente indiferente aos seus sacrifícios. Estão com medo de perder espaço de mercado para os jovens e para a nova revolução digital, as ditas Inteligências Artificiais.
O caminho de cura para Quíron em Touro parece simples, mas é bem doloroso. Ele exige que a pessoa pare de brigar com o próprio futuro. A chave é render-se ao momento presente, habitando o único espaço onde de fato se pode estar. É preciso aprender a usufruir de tudo o que este signo venusiano tem a oferecer: sentar-se à mesa e aproveitar o banquete, deleitar-se com o sabor do chocolate, mergulhar nos prazeres do corpo, receber o toque de uma massagem e validar a matéria.
O momento presente é a única concretude que temos; todo o resto é ilusão.
Ao caminhar para esse deleite, o medo, a ansiedade e a angústia serão grandes. Não faltarão argumentos pessoais e sociais para que se sinta culpado por não ter um alto rendimento ou apenas por estar “parado enquanto todos se movem”. O antídoto é se expor ao prazer, ao ócio e à ‘preguiça’, constatando que o universo não vai desabar por causa disso.
É após um mês inteiro descansando na praia que o indivíduo com Quíron em Touro finalmente descobre: não há castigo algum em querer apenas ficar confortável.

por André Bertoldo
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La vamos nós para essa temporada tão potente!