Muitos astrólogos têm conhecimento técnico profundo. Mergulhar em livros, palestras e discussões entre pares é um habitat natural. Só que, em tempos de redes sociais, aprender a navegar por essas plataformas e divulgar seu trabalho para clientes e alunos virou parte do trabalho. No Brasil, esse cenário ganha ainda mais peso: segundo a DataReportal, o país tinha 150 milhões de identidades de usuários de redes sociais em outubro de 2025. Já no comparativo global publicado pela mesma plataforma em 2024, o Brasil aparece em segundo lugar em tempo diário de uso da internet, com média de 9h13 por dia, acima da média global de 6h40.
É preciso reconhecer que a presença digital passou a influenciar diretamente a forma como as pessoas descobrem profissionais, acompanham conteúdos, se informam, constroem confiança, criam e mantém conexões e decidem a quem recorrer.
Muitas vezes vemos o termo “fazendo marketing” sendo usado de forma pejorativa. Eu, como publicitária de formação tradicional, e pós graduada em comunicação integrada de marketing, sempre me incomodo com isso, principalmente porque geralmente não é uma crítica ao marketing em si, e sim a uma comunicação ruim, ou a práticas antiéticas.
Um dos erros mais comuns é achar que marketing é fazer publicidade no Instagram ou vender gato por lebre, ou seja, ludibriar o consumidor. Segundo Kotler e Keller (2012) marketing pode ser entendido como o processo de identificar e atender necessidades humanas e sociais, de forma lucrativa.
O objetivo do marketing é entender tão bem o público que a oferta faça sentido na vida real: ela encaixa, resolve um problema, organiza um desejo, facilita uma escolha. Em alguns casos, o marketing também ajuda a revelar demandas que ainda não estavam claras para a própria pessoa. Isso não precisa ter nada a ver com manipulação, e pode ser simplesmente o ato de nomear uma dor, dar linguagem para uma necessidade, oferecer um caminho. Dá para trabalhar uma ferramenta com ética, mesmo que vejamos pessoas que a utilizam de maneira errada. E como astrólogos, sabemos que isso também acontece com a própria astrologia, não é?
A própria origem do termo marketing aponta para uma lógica de mercado (market = mercado em inglês). Fazer marketing é estudar o seu mercado: o que você oferece, para quem você oferece, quem mais oferece coisas semelhantes, quem oferece coisas distintas que interessam ao público a quem você oferece e quais os desafios e oportunidades para o seu mercado no cenário atual. A comunicação entra como a ponte, ela traduz valor em mensagem, presença e consistência.
Quanto melhor conhecemos o outro, melhor conseguimos oferecer o que ele precisa. E, se estamos falando também de astrologia, não temos justamente um mapa e padrões simbólicos e comportamentais nas mãos?A questão, então, pode ser menos sobre vender, e mais sobre comunicar com clareza, responsabilidade e intenção.
A disputa por atenção online é enorme e podemos culpar “algoritmos” e ficar com receio das mudanças constantes (e que virão cada vez com mais aceleração), ou ter mais clareza do que pretendemos e quais ferramentas temos a nosso dispor para isso.

Um astrólogo pode atuar como uma empresa, mas antes disso ele é uma pessoa. Com seu mapa próprio, e querendo ou não, ele é uma marca pessoal. E por marca pessoal o que quero dizer é: há um conjunto de características, valores e forma de trabalhar que te tornam reconhecível. É a sua reputação administrada com intenção. O que as pessoas falam sobre você quando você não está na sala.
Isso significa também que mesmo quando você acha que está só “falando de astrologia“, está registrando sinais sobre quem você é, como você se cuida, o que é importante pra você e se você parece saber o que está fazendo.
Faça esse exercício breve. Tente completar essa frase, do ponto de vista de outra pessoa, pensando em você mesmo(a) como astrólogo(a): “Esse é o fulano (insira seu nome), ele é aquele que _______”
Como as pessoas lembram de você? Ao que elas te associam? Qual parte do seu trabalho é mais externalizado? Muitas vezes, um astrólogo quer se destacar como referência em astrologia locacional, mas está constantemente trazendo conteúdos mais básicos ou voltados para personalidade. O contrário também acontece.
Entender, primeiramente, o que é importante pra você: seus talentos, seus gostos, suas ferramentas pessoais. Depois, descobrir e entender como comunicá-los para resolver as questões das pessoas. E é aí que entram as ferramentas práticas: onde você vai estar (não adianta querer se conectar com a Geração Z e só se expressar no Facebook ou criar um TikTok para atingir o público 60+), como vai aparecer e com que frequência.
Buscar seguir a sua autenticidade — e o seu mapa natal — sem vestir um personagem. Mas fazer também escolhas intencionais de como essa mensagem vai chegar.
Se permitir a vulnerabilidade de se questionar e investigar o próprio mapa. Mercúrio pode te oferecer pistas com sua forma de expressão e tradução da sua complexidade. Seu Meio do Céu te ajuda a perceber direcionamentos sobre essa imagem pública e reputação. O Sol pode apontar temas centrais para você. Vênus inspirar sua estética, valores e formas de criar desejo. O Ascendente pode apontar sua forma de se colocar no mundo. A Lua sobre forma de se nutrir emocionalmente ao lidar com o público. E assim por diante, porque o mapa natal é um ecossistema, não um checklist.
Assim como ler o mapa não é uma fórmula de copia e cola, entender uma comunicação mais autêntica também não é. E ela não é fixa. Você pode e deve se desenvolver, testar e analisar.
Se abrir para lapidar essa sua mensagem e não se prender a resistências pessoais. Em um estudo de 2018 da Universidade de Princeton, Susan T. Fiske encontrou que os melhores comunicadores exibem uma combinação única de dois traços: cordialidade e competência. Segundo esse estudo, uma boa parte da impressão que temos do outro vem desses dois critérios. O quanto um profissional é visto como simpático, amigável, confiável e social, e o quanto ele é competente, eficiente, inteligente e cheio de recursos. São conceitos que parecem subjetivos mas não são tanto assim. Essas percepções são formadas pela comunicação transmitida — seja ela intencional ou não. Sua aparência, suas frases, seus assuntos escolhidos, as pessoas com quem você associa, tudo compõe essa mensagem registrada pelo interlocutor.
Antes de criar um post, ou realizar uma live, ou lançar um curso, se questione:
“Quem eu quero que receba essa mensagem? O que essa mensagem pretende gerar no outro?”
Quanto mais detalhada for a sua resposta, maior a chance de criar uma comunicação clara.
Referências:
DATAREPORTAL. Digital 2026: Brazil. Disponível em: https://datareportal.com/reports/digital-2026-brazil
DATAREPORTAL. Digital 2024: Global Overview Report. Disponível em: https://datareportal.com/reports/digital-2024-global-overview-report
KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de Marketing. 14. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2012.
FISKE, Susan T.; CUDDY, Amy J. C.; GLICK, Peter. Universal dimensions of social cognition: warmth and competence. Trends in Cognitive Sciences, 2007.
por Iara Felix
Astróloga há 7 anos, publicitária e especialista em Comunicação Integrada de Marketing.



