De tempos em tempos, a notícia reaparece com o mesmo tom triunfante: “estudo derruba a astrologia”. O desenho costuma ser sempre parecido — toma-se uma variável do mapa, como uma posição planetária ou um signo, reúne-se um grande número de mapas que a compartilham e cruza-se isso, estatisticamente, com alguma outra variável mensurável que se esperaria das pessoas. Roda-se o cálculo, não se encontra a correlação esperada, e o veredito vem pronto: a astrologia não passa de superstição. O astrólogo calejado, que conhece bem esse roteiro, suspira como quem sabe que algo ali está fora do lugar desde o começo. 

Mas há uma pergunta que quase ninguém faz, e talvez seja a mais importante: e se o problema nunca tiver sido a astrologia, mas a régua usada para medi-la?

Um mal-entendido de origem

Quando se tenta validar a astrologia por meio de um experimento estatístico, parte-se de uma suposição silenciosa: a de que o significado de um signo zodiacal funciona como uma variável quantificável. Algo que se isola, se conta e se compara. Espera-se que “ter Marte em Áries” produza um efeito tão estável e repetível quanto a temperatura de fervura da água.

Só que o zodíaco não é feito dessa matéria. Ele não pertence à ordem das coisas que se quantificam — e é exatamente por isso que escapa do experimento. Mas isso não lhe tira  entidade nem seriedade, simplesmente tem outra natureza. 

Para entender por quê, é preciso recuar a uma distinção que está na raiz de tudo. 

Como funciona um símbolo

Para o filósofo e astrólogo Jorge Bosia, o zodíaco é um sistema simbólico. Isso quer dizer que ele é composto por símbolos — os signos, os planetas, as casas — e que cada um deles funciona como um símbolo funciona. Parece óbvio, mas é aqui que mora toda a confusão, porque a maior parte das tentativas de “testar” a astrologia trata o símbolo como se ele fosse outra coisa.

Desse ponto de vista, a astrologia é um sistema de conhecimento que procura compreender o próprio cosmos. O zodíaco é o seu sistema simbólico: um conjunto de símbolos que busca conter todas as qualidades do cosmos — ou, em outras palavras, todas e cada uma das qualidades que a própria existência pode assumir. Afinal, não é verdade que se pode levantar um mapa astral de absolutamente qualquer objeto, ser ou evento que exista? É justamente por isso que os signos do zodíaco são símbolos que expressam qualidades universais do cosmos — significados universais. Áries, por exemplo, pode ser entendido como o impulso vital inicial, a força dos começos. Essa qualidade não foi inventada por nenhuma cultura: ela sempre existiu e sempre existirá.

O problema é que esse significado universal é grande demais para nós. O ser humano não consegue apreendê-lo diretamente, na sua totalidade. Necessariamente, se eu como ser cultural, temporal e finito, tento descrever algo universal, só poderei fazê-lo a partir da minha finitude, a partir da minha cultura. E portanto, jamais conseguirei abarcar todas as infinitas opções nas quais Áries pode se manifestar ao longo do tempo e da história. 

Nós somos seres culturais, só podemos compreender o mundo através dos símbolos da nossa cultura. Para compreender um fenômeno e explicá-lo, iremos usar, por exemplo, as palavras que temos aprendido. E uma palavra, nada mais é que uma convenção social a respeito de como chamar determinado fenômeno. E justamente por isso, toda palavra sempre faz referência a outra coisa. 

Carl Jung já mostrava que o símbolo aponta sempre para um sentido maior do que ele mesmo, e que é por meio dele que aquilo que é arquetípico e invisível se torna experienciável para nós; Paul Ricoeur dizia que o símbolo carrega um excedente de sentido e “dá que pensar”, porque nunca se deixa traduzir por inteiro; E o filósofo Hans Jonas lembrava que toda imagem é sempre imagem de alguma coisa — uma representação que se ajusta, em maior ou menor grau, àquilo que evoca, conforme a cultura de quem a criou. Em outras palavras: o símbolo é uma relação, não um objeto. Ele só existe no encontro entre quem interpreta e o que é interpretado. 

Como não é possível compreender aquele significado universal de forma completa, fazemos a única coisa possível: para nos aproximar dele, criamos analogias com a nossa própria cultura. Quando quero falar de Áries, recorro ao parto, ao Big Bang, à lâmina de uma faca, ao primeiro grito de guerra. Repare: Áries não é nenhuma dessas coisas. Cada imagem é apenas uma tentativa de chegar mais perto de um núcleo de sentido que nenhuma delas esgota. E justamente por isso, outro astrólogo poderá usar analogias completamente diferentes, mas nós dois sabemos de que estamos falando quando falamos de Áries. 

É por isso que Bosia descreve o símbolo como um vaso de significado: um recipiente que contém aquele sentido universal e que recebe, por fora, um nome e um desenho — o Carneiro, o glifo de Áries — e todo um leque de analogias que tentam tocá-lo. O vaso comporta muitas imagens ao mesmo tempo, sem se reduzir a nenhuma.

Símbolo não é conceito

Agora dá para nomear com precisão onde o experimento tropeça. Existe um abismo entre conceito e símbolo, e a ciência nascida de Descartes trabalha com o primeiro.

Um conceito é uma descrição precisa e fechada de algo que está diante de mim: a palavra “cadeira” cobre, de forma unívoca, todas as cadeiras possíveis. O conceito define, delimita, mede. A ciência cartesiana opera assim — com conceitos, com lógica, com quantidades. Ela pergunta se algo é verdadeiro ou falso, e exige uma resposta: sim ou não. É um pensamento binário, de duas casas apenas.

O símbolo é de outra ordem. Como mostra Bosia, simbolizar não é conceitualizar. O símbolo não define: aproxima-se, por analogia. Não mede: qualifica. Não trabalha com quantidades, mas com as qualidades do cosmos. E não cabe na lógica do verdadeiro ou falso, porque é trinário — não responde “sim” nem “não”, mas uma terceira coisa, que é a riqueza de sentidos contida no vaso. Por isso não opera por dedução nem por causalidade linear: de um símbolo não se extrai um efeito único e obrigatório, do jeito que de uma causa se extrai um efeito.

Querer medir o zodíaco é, portanto, exigir que o símbolo se comporte como conceito. É traduzir para o binário aquilo que é trinário. E, nessa tradução, perde-se justamente o que faz de um símbolo um símbolo. Reduzi-lo a um valor fechado é como avaliar um quadro pela quantidade de tinta gasta: tecnicamente possível, completamente inútil.

Por que a estatística erra o alvo (e o que isso revela)

Veja o que acontece num teste típico. Reúne-se um grupo de pessoas com Marte em aspecto tenso com Plutão esperando encontrar, digamos, mais agressividade. Algumas serão agressivas; muitas não. A conclusão apressada é que “não há correlação” — que a astrologia falhou.

Mas não falhou nada. O que aconteceu é que o núcleo de significado de Marte se manifestou, naquelas pessoas, por outras de suas analogias. Em vez de virar agressividade, virou vontade de agir, capacidade de lutar pelo que quer, energia para realizar. O significado marciano está sempre presente naquela configuração; o que não existe é uma regra binária que diga “se tem Marte em determinada posição, então briga”. O símbolo se manifesta como um leque de possibilidades, todas fiéis ao mesmo núcleo. O teste estatístico, para funcionar, precisa fixar de antemão uma única manifestação esperada — e, quando o símbolo aparece sob outra forma, lê isso como ausência, quando na verdade é abundância. 

E do que depende que o núcleo se manifeste por uma analogia e não por outra? De muitas coisas — do grau de autoconhecimento da pessoa (que pode lhe permitir canalizar Marte como coragem criativa, em vez de agressividade); do seu contexto sociocultural (não é o mesmo ter Júpiter na Casa 2 tendo nascido numa família de classe alta ou na mais profunda pobreza); e, claro, do resto do mapa, que tanto pode suavizar quanto reforçar — por exemplo — as características agressivas de um Marte em aspecto tenso com Plutão. É um feixe de fatores singulares, e não uma chave liga-desliga.

Existe, sim, pesquisa séria — só que de outro tipo

Disso tudo não se conclui que a astrologia seja impesquisável. Conclui-se algo bem mais interessante: que o erro nunca foi pesquisar, e sim pesquisar com o instrumento errado. Se entendermos “ciência” apenas como a das ciências exatas — isolar uma variável, repeti-la em laboratório, quantificar o resultado —, então realmente não dá para medir o zodíaco, e insistir nisso é um erro de método. Mas essa não é a única forma de conhecimento rigoroso. Há toda uma tradição, a das ciências humanas — a sociologia, a antropologia, a psicologia —, em que o rigor não está em contar, e sim em compreender a estrutura do sentido: como um sistema simbólico se organiza e como as pessoas significam suas experiências através dele. Isso não significa expulsar o número: dá, sim, para combinar o qualitativo e o quantitativo, como tanto se faz na sociologia — desde que o que se conte sejam as interpretações e os usos do símbolo, e não a pretensão de medir o símbolo como se fosse uma causa física. Troque a régua, e o problema se desfaz.

Quando o objeto é simbólico, a pergunta de pesquisa muda de forma. Não se trata de provar “o que Marte faz” numa amostra, como se o planeta emitisse um efeito mensurável e idêntico em todos. Trata-se de investigar as diferentes maneiras pelas quais as pessoas  vivem esse símbolo — o leque de analogias pelas quais aquele núcleo universal se realiza em vidas concretas. É uma astrologia estudada com todo o rigor das abordagens qualitativas, mas sem trair a natureza trinária daquilo que estuda. Rigor e respeito ao objeto deixam de ser inimigos. 

A pergunta certa

Talvez o maior engano de todos esteja na pergunta inicial — “a astrologia é verdadeira ou falsa?”. Essa é uma pergunta binária, de conceito, e o zodíaco é trinário, é símbolo. A pergunta que faz justiça ao seu objeto é outra: que tipo de saber é este?

A resposta é que se trata de um conhecimento simbólico. E símbolos não se provam no laboratório, do mesmo modo que o amor não se demonstra numa equação, embora seja a coisa mais real do mundo para quem o vive. A ciência exata nunca conseguiu medir o zodíaco — e isso, longe de ser um veredito contra a astrologia, é apenas a constatação de que estávamos, o tempo todo, segurando o instrumento errado.

 

Anahí Lucas é socióloga e astróloga, autora do livro Detetive do Tempo e coordenadora do Núcleo de Pesquisa da CNA.

As opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião ou o posicionamento oficial da CNA (Central Nacional de Astrologia) e de sua Diretoria. O conteúdo visa estimular o debate e a difusão do conhecimento astrológico sob a perspectiva individual de cada colunista.
 

 

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