Eu tinha cerca de sete anos no final dos anos 60 e morávamos em Moema, um bairro residencial em São Paulo, à época, uma cidade com pouquíssimos edifícios. A iluminação das ruas à época permitia que se visse o céu. Frequentemente, meu pai me levava para a calçada para observar o céu e me ensinou a identificar várias constelações e suas estrelas.

Mais tarde, ingressei na Escola de Marinha Mercante e me formei Oficial de Náutica. O conhecimento adquirido na infância foi valioso numa época em que ainda não existia o GPS e a navegação era feita com o sextante, observando o Sol e as estrelas para obter a posição do navio. 

Trabalhei como piloto por dez anos, viajando por quase todo os mares, maravilhando-me diariamente com o espetáculo dos Astros no céu. Ainda recém-formado, comecei a estudar Astrologia, uma vez que esta se propõe a atribuir significado aos Astros e seus movimentos. Desta forma, combinei o conhecimento astronômico com o saber astrológico, constatando que de fato, a Astrologia é uma linguagem, que busca interpretar as mensagens que os deuses, representados principalmente pelos Luminares e planetas, procuram nos enviar simbolicamente.

Aprendi Astrologia Tradicional mesmo sem saber que existiam outras possibilidades de interpretação do céu. Aos poucos, fui aprendendo outras formas de ler e analisar o céu, porém, em razão de outros estudos que realizei em paralelo à Astrologia, contribuindo para a minha formação, mantiveram-me sempre no eixo da Astrologia Tradicional.

É Horst Oochmann, em “O Instinto Geométrico”, que afirma que embora a Astrologia tenha surgido na Suméria em cerca de 12.000 aec, é pouco provável que tenha se mantido incorruptível até 1.700 aec, quando Hamurabi mandou organizar o conhecimento Astrológico então existente. A base do conhecimento Astrológico hoje existente começou a ser estruturada na Grécia e no Egito entre os séculos III aec e I ec, acompanhando o desenvolvimento científico e tecnológico então alcançado. 

O período da Escola de Alexandria foi um cadinho de enorme importância para a Astrologia, na medida em que reuniu os saberes de vários astrônomos/astrólogos de diferentes formações. Este compartilhamento fez brotar a Cabala, que é um saber astrológico codificado, mas também possibilitou o desenvolvimento posterior da Astrologia entre os árabes graças à trigonometria. Foram os árabes que introduziram a Astrologia na Europa no início do século X. Os astrólogos europeus se debruçaram sobre uma vasta literatura astrológica árabe e grega, reinterpretando-a a partir da cultura do Ocidente e com uma visão cristã.

Se tomarmos de uma forma crítica, o que denominamos atualmente por Astrologia Tradicional corresponde principalmente ao saber astrológico produzido entre os árabes entre os séculos V e VIII, antes de ingressar na Europa.

Mas o que é esta Astrologia Tradicional proveniente daqueles astrônomos/astrólogos árabes?

É preciso considerar que o povo árabe em geral é bastante religioso, razão pela qual encontramos em seus textos originais uma profunda reverência a Allah e agradecimentos pela inspiração concedida a cada capítulo ou tema tratado. Esta atitude vem ao encontro do impacto do maravilhamento que o céu nos proporciona, quando o compreendemos, mesmo que não inteiramente.

Estes mestres do passado nos legaram um sistema de interpretação simples e organizado ao estabelecer a relação entre os eventos no céu e aqueles da Terra. Mas também nos legaram um saber consistente que serve como caminho para nos reconectarmos com o Universo através da autoconsciência.

Este sistema tem como ponto de partida o Horizonte e o Zénite, referências do Espaço Local e consequentemente, atribui às Casas Astrológicas e especialmente ao Ascendente grande importância. 

Costumo dizer que o sistema de interpretação árabe é “casófilo”. Porém, os atores principais são os Astros. Utilizam-se apenas os sete Astros visíveis. O sistema de Dignidades Essenciais Maiores confere a estes Astros força e modo quanto à sua expressão e manifestação nas Casas Astrológicas. As Dignidades Menores conferem outros detalhes como cooperação e participação.

É preciso ressaltar que em Astrologia Tradicional, Astros, Signos e Casas Astrológicas tem papéis distintos e não tem significados intercambiáveis. Porém, muitos dos significados e atribuições dos Signos Astrológicos ocorrem também em decorrência dos Astros que os governam.

A combinação destas informações permite um nível de detalhamento bastante preciso sobre a qualidade e a intensidade dos acontecimentos prometidos no gráfico astrológico que está avaliado.

Os aspectos astrológicos tem a função de indicar se os acontecimentos acima preditos ocorrerão ou não e qual o seu desfecho, correspondendo a uma espécie de diálogos entre os Astros/deuses.

E por fim, as Dignidades Acidentais indicam o grau de importância das informações descritas até o momento.

Estas três etapas correspondem o que Morin de Villefranche, astrólogo francês do século XVI, menciona como as três etapas da interpretação de qualquer gráfico astrológico: avaliar, ponderar e julgar. 

Este astrólogo, em Astrologia Galica, Tomo XXI, reuniu todos estes passos como um sistema. Henry Selva, astrólogo judeu do início do século XX, organizou as informações que hoje conhecemos como “As 112 Determinações de Morin”. 

Em termos atuais, podemos afirmar que a Astrologia Tradicional, através das interpretações que realiza, busca fazer com que o indivíduo seja um(a) melhor gestor(a) de sua própria vida e para isso, dirige o olhar de sua interpretação tanto para o mundo dos acontecimentos cotidianos, como também, para as esferas de desenvolvimento da consciência através da relação com as Hierarquias Celestiais. Propõe-se a oferecer caminhos e soluções tanto na esfera dos acontecimentos mundanos, mas também, na esfera metafísica, independentemente de sua compreensão à respeito.

Hoje, o adulto olha para o céu com o mesmo maravilhamento da criança ao lado do pai, mas com a compreensão que todos aqueles pontinhos de luz representam, interrogando qual é a mensagem dos deuses para aquela ocasião.

 

por Henrique G. Wiederspahn

Compartilhe este conteúdo!

2 Comments

  1. Alessandra 04/03/2026 at 12:44 pm - Reply

    👏👏👏 Adorei!

  2. Iara 04/03/2026 at 2:33 pm - Reply

    Excelente! Muito interessante que os astros já te maravilhavam desde o início

Deixe seu comentário: Cancelar resposta