Astrologia, Caos e Transdisciplinaridade

27 de Janeiro de 2012 Artigos, Diversos: a partir de janeiro/2010 Comentários desativados em Astrologia, Caos e Transdisciplinaridade

Prólogo:
A conversa a seguir aconteceu em Benares em 1982. É um trecho da primeira leitura de mapa na vida do autor, feito por um astrólogo Hindu. Apesar de a Astrologia hindu ter a fama de ser uma das mais precisas do mundo, nem sempre eles confiam.

 Astrólogo: Você irá escrever alguns livros.
 James T. Braha: O quê?
 Astrólogo: Você irá escrever alguns livros.
 J. T. B. : Você tem certeza?
 Astrólogo: Sim.
 J. T. B. : Quantos?
 Astrólogo: Uns poucos, cinco ou seis.
 J. T. B.: Você tem certeza?
 Astrólogo: Sim.
 J. T. B. : Mas você tem certeza? Eu posso acreditar que a resposta é positiva?
 Astrólogo: Meu caro amigo, Astrologia não é uma ciência absoluta.
 J. T. B. : Ahhhhhh…
 Astrólogo: Mas você irá escrever livros!
Extraido do livro: “Ancient Hindu Astrology…” de J. T. Braha

INTRODUÇÃO:

A Astrologia é um conhecimento tradicional cuja origem se perde nas brumas do tempo.
Menosprezada pelos adeptos de uma visão científica, continua ativa e praticada por milhões de pessoas no mundo inteiro.
Só a Índia possui mais de 25 milhões de praticantes.
Uma utilização clássica da Astrologia é a indicação dos talentos de uma pessoa. Por talentos, entenda-se habilidades e caráter.
Segundo Viktor D. Salis, na Grécia arcaica só se dava o nome a uma criança depois de analisar seu mapa e verificar quais os seus talentos.
Yukteswar, guru de Yogananda, tinha suas razões quando afirmava:

“Uma criança nasce naquele dia e naquela hora em que os raios celestiais estão em harmonia matemática com o seu karma individual. Seu horóscopo é um retrato desafiador, revelando seu passado inalterável e seu provável resultado futuro, mas a carta natal somente pode ser corretamente interpretada por pessoas de sabedoria intuitiva: essas são poucas.”
SWAMI SRI YUKTESWAR , no livro Autobiografia de um Yogui, de Yogananda.

Kepler, astrônomo do século XVI, mais famoso em seu tempo como astrólogo do que como matemático, afirmava: “Os astros inclinam, não obrigam”.

Jung costumava levantar o mapa astral de seus pacientes.

A Astrologia antiga utilizava apenas sete planetas, que eram dispostos numa estrela de sete pontas seguindo a sequência do maior passo (Lua) até o menor, Saturno. As implicações dessa disposição são muitas: indicam os dias da semana, as horas dos dias, o regente do ano, e até o Pai Nosso! É aqui que a Astrologia se torna um instrumento da Magia e Alquimia.

Trabalha também com doze signos, casas, aspectos, regências etc. Não vou me entender sobre isso, pois este simpósio é de Astrologia, para astrólogos, com uns poucos leigos.

A posição de um planeta varia de acordo com a sua órbita em torno do Sol, órbita que não é calculada analiticamente. É um problema de solução analítica impossível. Existem soluções particulares para três corpos, o que não é o caso, o que se faz são observações ao longo do tempo e as devidas correções das perturbações orbitais.
Mesmo nos tempos atuais, o cálculo aproximado da posição tem um limite de tempo e espaço.

As estrelas também mudam lentamente de posição ao longo dos séculos e milênios.
O início do zodíaco tropical, o chamado ponto γ, (zero de Áries), é outro fator complicador. O posicionamento deste ponto em relação às estrelas indica o início das grandes eras. A posição do ponto varia pela equação aproximada dada a seguir:
p = 5.028,796195 + 2,2108696×T + termos de ordem mais elevadas. (T em milhares anos, p, variação do ponto γ, em segundos de arco).

O termo constante dessa velocidade corresponde a um ciclo de aproximadamente 25.772 anos.
Essas variações não impedem a utilização da Astrologia num curto período, mas coloca em dúvida sua extrapolação para períodos maiores (mapas de 2000 anos AC).
A imprecisão se torna muito grande.

Complemento à Introdução:

Segundo G.I. Gurdieff ,estamos sujeitos a sete influências:
1. A hereditariedade em geral.
2. As condições e o meio no momento da concepção.
3. A combinação da irradiação de todos os planetas de seu sistema solar durante sua formação no seio de sua procriadora.
4. O nível das manifestações conscientes de seus procriadores – enquanto eles mesmos não tenham alcançado a idade de um ser responsável.
5. A qualidade de existência consciente dos seres de seu círculo imediato.
6. A qualidade das ondas de pensamento formadas na atmosfera que o rodeia – e isto, igualmente, até sua maioridade; em outros termos, os desejos e os atos cheios de bondade sinceramente manifestados pelos “seres do mesmo sangue”. E, finalmente:
A qualidade de seus próprios seres, quer dizer, dos esforços conscientes que eles cumprem para transmutar em si todos os dados necessários à obtenção de uma Razão objetiva.

Onde está o Caos?

SISTEMAS CAÓTICOS:

Os fenômenos de “caos determinista” ou de “complexidade” referem-se a muitos sistemas existentes na natureza, cujo comportamento vai mudando com o transcorrer do tempo (sistemas dinâmicos).
Segundo Poincaré, existem dois tipos de sistemas dinâmicos: os não-integráveis e os integráveis.

Diz Prigogine – Essa classificação parece abstrata, mas de fato ela corresponde a algo bem simples: todo sistema dinâmico compreende uma “energia cinética” e uma “energia potencial de interação”. Nos “sistemas integráveis”, pode-se eliminar essa energia potencial e obter um sistema formado de partículas independentes, enquanto nos “sistemas não-integráveis” a “interação” é irredutível e indispensável para compreender o comportamento do sistema.

Tais fenômenos aparecem quando os sistemas se tornam extremamente sensíveis a suas condições iniciais de posição, velocidade etc., de modo que alterações muito pequenas em suas causas são capazes de provocar grandes diferenças nos efeitos.

No entanto, os pesquisadores descobriram que os sistemas dinâmicos, nessas condições, apresentam estruturas de regularidade coletiva, embora não seja possível diferenciar o comportamento individual de cada um de seus componentes.

“O pensamento complexo não despreza o simples, mas critica a simplificação.”
Frase de Edgar Morin.

O desenho a seguir, tirado do livro de E. Lorenz, mostra que pequenas variações iniciais mudam completamente a trajetória de uma descida de esqui, simulada num computador.

Lorenz, e outros, descobriram que, apesar da instabilidade, existe uma tendência de os sistemas caóticos se sentirem atraídos para um ou mais estados. São os “Atractores”. A figura a seguir ilustra um caso do “Atractor de Lorenz”.

SISTEMAS CAÓTICOS – ASTROLOGIA
Como poderíamos inserir o conceito de complexidade e de Caos em Astrologia:
poderíamos considerar que um mapa astral poderia ter indicadores catastróficos?

Alguns exemplos iniciais.

“A definição de Ascendente, Meio-do-Céu e Vertex podem ser muito simples para os astrólogos tecnicamente inclinados, mas são muito mais complexos do que se pensa, mesmo em latitudes “normais”.
Robert Hand

A. Volguine pergunta:
A Revolução Solar deve ser calculada a partir da posição tropical ou sideral do Sol?

Certos mapas indicam posições em que fica difícil evitar uma catástrofe, ou um “des-astre” (dos astros). Como explica René Thom: uma fronteira catastrófica é fácil definir, o difícil é saber para onde vai o sistema. Na figura abaixo passar do claro para o escuro significa oscilar entre duas formas completamente: diferentes:

Seria a Astrologia caótica? Poderíamos considerar que os signos Solar, Lunar, Ascendente e MC, seriam poderosos atractores que condicionariam o comportamento de um ser humano, preso à mecanicidade existencial, ao longo de sua vida? E, nesta visão, como veríamos o livre-arbítrio ou a escolha das trajetórias existenciais?

Um planeta atua em nós por imagem ou por algo mais real? É só um corpúsculo ou poderíamos considerá-lo também como uma onda, pelo menos em termos da evolução da espécie humana como um todo?

PAUSA PARA REFLEXÃO

“Esse espermatozóide que eu me tornara parecia-se com um complexo microcosmo, um universo em si mesmo. Eu sentia os processos bioquímicos no nucleoplasma e visualizava os cromossomos e até mesmo a estrutura molecular do DNA. A configuração arquetípica primordial das moléculas de DNA era entremeada com imagens holográficas de várias formas de vida.
As configurações fisioquímicas pareciam estar intimamente ligadas com impressões filogenéticas primordiais, recordações ancestrais, mitos e imagens arquetípicas, tudo isso coexistindo na mesma matriz infinitamente complexa. A bioquímica, genética, história natural e mitologia pareciam estar inextricavelmente interligadas e ser apenas aspectos diferentes do mesmo tecido cósmico tão complexo.
A corrida dos espermatozóides também parecia ser governada por algumas forças externas que determinavam seu destino final. Eu senti QUE TINHA ALGO A VER COM A HISTÓRIA E COM AS ESTRELAS E CONCLUÍ QUE REPRESENTAVAM INFLUÊNCIAS CÁRMICAS E ASTROLÓGICAS MISTERIOSAS.” (grifo e caixa alta meus).
Retirado do livro ‘Quando o Impossível acontece’ de Stanislav Grof.

Aonde realmente começa a influência astrológica? Se essa experiência for levada ao pé da letra, a Astrologia baseada apenas no mapa de nascimento torna-se incipiente e caótica, no sentido determinístico.

TRANSDISCIPLINARIDADE:

Seguindo Basarab Nicolescu, com intervenções de minha parte:

A Transdisciplinaridade se justifica por meio das seguintes bases:

A) Retomada do conceito da descontinuidade dos fenômenos da natureza, abandonando portanto a causalidade local, por uma causalidade mais ampla.

A idéia da continuidade está intimamente ligada a um conceito chave da física clássica: a causalidade local.
As causas das influências astrológicas são desconhecidas. Na realidade ainda não se sabe como os Planetas, Signos, Estrelas e Constelações atuam sobre nós. Temos uma causalidade não local.

Uma consequência direta cultural e social deste conceito da causalidade é achar que o Universo é uma grande máquina. Isto, segundo Prigogine, só vale para sistemas dinâmicos integráveis.

B) Adoção do indeterminismo quântico.

O conceito de determinismo é crucial na história das idéias. Pelas equações da Física Clássica, se soubermos as posições e as velocidades dos objetos físicos num dado instante, podemos prever suas posições e velocidades.
Laplace chegou a afirmar que não precisara da hipótese de Deus para escrever seu livro de Mecânica Celeste. O demônio de Laplace poderia descrever o futuro a partir do estado presente. Isso me lembra os astrólogos deterministas, que negam fanaticamente o livre-arbítrio do ser humano.

Apesar de a Astrologia aparentemente trabalhar a partir do macroscópico, o fato é que a variação de tempo pode ser infinitesimal. Fica difícil falar em Quântica em sistemas macros; Goswami diz que se pode. Não sabemos também se podemos relativizar a aproximação planetária em relação à distância e tamanho dos planetas.

Poderíamos considerar que os aspectos transitórios geram uma onda com um determinado tom que subiria enquanto temos um aspecto partil aplicativo e desceria quando o aspecto fosse separativo (como uma sirene de ambulância)? E os aspectos natais? Criariam uma tensão gerando um acorde que poderia se modificar pelos trânsitos, progressões, e mudança de local de vida?

A cada signo e a cada planeta fazemos corresponder um órgão, ou sistema fisiológico. Partindo do pressuposto de que cada órgão tem uma freqüência de ressonância, tanto mecânica como eletromagnética, devido à sua impedância característica, os astros e signos (ou constelações) produziriam uma vibração que os vincularia a esses órgãos?
Essas vibrações viriam pelo espaço/tempo tetradimensional ou através de outras dimensões que ultrapassam o nosso conhecimento técnico/científico, apesar de as modernas teorias de Física falarem de 11 dimensões (a teoria das super-cordas)?

Está demonstrado, segundo se saiba, que pequenas vibrações eletromagnéticas atuam sobre nós; campos magnéticos mil vezes abaixo da variação do campo da Terra modificam a permeabilidade iônica do tecido nervoso cerebral.
Podemos esperar que pequenas harmonias e desarmonias planetárias provoquem essa alteração?
Pensando, novamente, que cada órgão tem uma impedância complexa própria, ele não ressoaria se o aspecto criasse uma onda naquela freqüência?

A figura abaixo, retirada do livro “Freqüência Vibracional” de Penney Peirce, mostra o espectro de radiações eletromagnéticas.

Rádio Microondas Tera Hz InfraVerm Visível Ultra-Vio R-X R – Gama

O gráfico abaixo, retirado do livro “Eletrodinâmica Clássica” de J. D. Jackson, mostra o espectro de ressonância do nosso planeta entre a camada ionosférica e a superfície.

O pico de ressonância é bem próximo da onda alfa, de repouso do cérebro humano.

Figura do livro Freqüência Vibracional” de Penney Peirce

O Inst. Monroe detectou uma série de níveis de consciência para a vida sobre a Terra:
Os níveis de 01 a 07 pertencem à Consciência do Reino Vegetal.
Os níveis de 08 a 14 pertencem à Consciência do Reino Animal.
Os níveis de 14 a 21 pertencem à Consciência do Reino Humano.
Os níveis de 21 a 28 pertencem a reino além do Humano.

Os níveis de 14 a 21 estão correlacionados aos Chacras: do Raiz ao Coronário.
Os níveis de 15 a 28 descrevem estados alterados de consciência quando estamos num nível além do mecânico (primeira atenção).

Voltando à Trans:

C) A aceitação de vários níveis de realidade.
Dois níveis de realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura das leis e rupturas de conceitos fundamentais. (Deve-se a este conceito-base uma primeira cisão dentro do movimento transdisciplinar.)

Algumas das contradições dentro da Astrologia creio que poderiam ser resolvidas considerando a Astrologia em vários níveis.
Inicialmente proporia uma divisão em Personalidade e Essência. Considerando a hipótese da permanência da Essência creio que, neste caso, seria mais adequado trabalhar com a Sideral.

D) O uso generalizado do Teorema de Gödel.
Em sua versão original, aplicado à axiomatização da Matemática, este teorema prova a impossibilidade de se provar que um sistema é completo e consistente, dentro do próprio sistema.

Cheguei à conclusão de que a Astrologia é a ponta de um iceberg de um conhecimento muito mais profundo e complexo do que podemos sequer imaginar. E que, sem a união transdisciplinar de todas as formas de conhecimento, não penetraremos na arte, filosofia, espiritualidade e ciência que permeiam nossa insignificante existência em um planeta muito pequeno em face da imensidão do Cosmos. O próprio mapa astral é projeção de uma configuração de mais dimensões.

Sem darmos uma opção para um sistema astrológico cósmico, fica, pela generalização do Teorema de Kurt Gödel, impossível validar a consistência e a completude de qualquer Astrologia .

E) A adoção da complexidade dos fenômenos em detrimento da simplicidade da Mecânica Clássica.
Esta é uma noção cara a Edgar Morin e a outros teóricos modernos. Não existe fenômeno natural simples, o que existe é uma visão simplificada dos fenômenos.

F) O princípio do Terceiro Incluído. Temos aqui uma aplicação da Lógica da Contradição de Stephane Lupasco. ”A realidade da alma é tecida com os fios do sonho. O fenômeno psíquico é a essência mesma da arte.” Lupasco.
Uma conjunção Júpiter e Saturno, por exemplo, combina duas energias contraditórias ou complementares. Sem levarmos em conta os outros planetas, casas, signos, não atingiremos uma conciliação explicativa.

Um pequeno cuidado:
“O resultado de um desenvolvimento matemático deve ser conferido constantemente com a nossa intuição do que constitui um comportamento biológico aceitável. Quando essa conferência revelar discordância, devemos examinar então as seguintes possibilidades:
a- Foi cometido um erro no desenvolvimento matemático formal.
b- Os pressupostos de partida são incorretos e/ou constituem uma simplificação demasiado drástica.
c- Nossa intuição sobre o campo biológico é inadequada.
d- Um penetrante princípio novo foi descoberto.”
HARVEY J. GOLD, Mathematical Modeling of Biological Systems.
Para concluir, acredito que Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade são igualmente importantes para a Astrologia dentro da visão Transdisciplinar. A Astrologia é uma Arte, é uma Ciência cujos fundamentos científicos não estão ainda estabelecidos no rigor necessário, e segue uma postura Filosófica da busca do significado desta vida e tem pressupostos Espirituais.

Um exemplo final:
Felipe: 09/10/1986, 9:h17; São Paulo

O primeiro mapa é de Felipe, autista, o segundo é de seu irmão gêmeo, que não é autista. Uma pequena mudança no início da vida, uma grande mudança na própria existência.

Onde estão as respostas?

Um pequeno poema que recebi numa aula de Astrologia esotérica. Atribuí a Milarepa, mas pode ser do meu Eu maior.

Busca em ti
toda a verdade que se espalha no universo.
Não temas o desconhecido:
é a porta da sabedoria.
Acredita no que vem do coração
pois ali mora o Atma.
O que queres, oh chela!
A verdade una, o princípio, o todo, o círculo sem fim?
Isto,
é a divindade!
Milarepa

São Paulo, 04/08/2006 16:20h

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Sobre o Autor

Rodrigo Araês é engenheiro de formação e mestre em engenharia biomédica. Atualmente aposentado, depois de trabalhar por décadas no ensino de importantes universidades paulistanas, destacando-se na discussão e inclusão da transdisciplinaridade nos circuitos universitários de ensino e pesquisa. Deu seus primeiros passos na astrologia em 1968, tornando seu trabalho mais efetivo a partir de 1976 quando teve contato com Raul Varella. Em 1974 passou a estudar a obra de Alice Bailey, sendo hoje uma das principais referencias na Astrologia Esotérica do país. É um dos autores do livro Astrologia – Doze Portais Mágicos. Foi presidente da CNA no período 2011-2012.