A Alma do Astrólogo

27 de Janeiro de 2011 Artigos, Internacionais Comentários desativados em A Alma do Astrólogo

Muito do material escrito no campo da astrologia é naturalmente direcionado para aumentar nossa eficiência no uso do mapa como uma ferramenta para ajudar nossos clientes. Apesar de que ajudar as pessoas é uma parte integral e satisfatória do meu trabalho, não é minha motivação primordial para trabalhar como um astrólogo.

Eu não escolhi estudar Astrologia. A Astrologia me escolheu. Ela me agarrou pelo tornozelo uma tarde, numa pequena varanda empoeirada em Green Park Road em Nova Delhi, Índia, no meio de dezembro de 1980, e nunca mais me deixou escapar. Eu tinha sido convidado para me reunir a uns amigos numa visita a um astrólogo que eles tinham descoberto. Na época, isto era só uma farra, uma coisa divertida para fazer como distração numa tarde em Nova Delhi. Eu estava muito mais interessado em uns prospectos de um passeio kamikazi pelas ruas lotadas de Nova Delhi, num taxi de três rodas, do que na consulta mesma.

Os detalhes daquela visita não são importantes. É suficiente dizer que fui informado sobre todas as coisas que um ocidental espera ouvir de um jyotishi (astrólogo hindu) na Índia. Fui informado de quanto eu viveria, quando eu atingiria a iluminação, minha divindade pessoal, a cor mais auspiciosa para mim, a melhor pedra para usar para a saúde e felicidade, com quem eu me casaria e quando, o campo de trabalho que era astrologicamente apropriado, etc. Enquanto eu era surpreendido pelos detalhes discutidos na leitura, na época eu considerei isto como sendo, no máximo, uma vaga injeção de confiança e, no mínimo, um entretenimento espiritual.

O que me abalou profundamente sobre a visita a esse pundit, não teve nada a ver com algo que ele disse para mim. Entre os livros desgastados, a varanda empoeirada, o chapéu engraçado, o inglês sofrível e a conversa sobre o meu futuro, eu senti uma alma que sabia, em seus ossos, que havia uma fonte de ordem no universo que era acessível para ele, que falou com ele. Ele tinha uma confiança e profundidade que derivava do contato diário com uma estrutura de realidade que corria por baixo de seu mundo visível. Esse homem tinha um pé no terreno arquetípico.

Os efeitos ocultos desta visita, permaneceram comigo por anos, servindo como um lembrete de que o estudo e a prática da astrologia é, primeiramente, um modelo para desenvolver uma familiaridade com os deuses e deusas que entremeiam seus caminhos através de nossas vidas. E talvez muito mais. Saturno, por exemplo, é experimentado como minha cautelosa voz interior, minha necessidade por algo concreto e permanente. Ele é a voz do Senex dizendo-me que devagar se vai ao longe. Saturno também é sentido em meus ossos e em meus dentes. Quando meu corpo dói no tempo frio e úmido, é um lembrete da minha idade avançada e de minha relação com o tempo, com o Pai-Tempo, com Saturno. Ele está presente nos tijolos e tábuas dos edifícios, e na hierarquia dos negócios e organizações. Saturno, entretanto, não é apenas ossos, ou liderança ou idade avançada ou regras. Essa são suas janelas para o nosso mundo e as nossas para o dele.

Conforme vamos reconhecendo as expressões, as epifanias do deus em nossa própria psique e no mundo à nossa volta, nós começamos a sentir uma linha que permeia e ventila seu caminho pela vida inteira, mesclando-se, entretecendo-se com muitas outras linhas, essências dos outros deuses e deusas. No princípio, o deus é experimentado como uma nebulosa qualidade que é muito mais identificada conosco, nossos medos, nossa precaução. Conforme vamos começando a refletir sobre a realidade objetiva do deus, começamos a notar quando ele agita nossa alma. ”É isso! Foi ele! Bem aqui! Eu sinto os breques funcionarem.” Quando nós o flagramos no ato, nós ganhamos um pouquinho mais de distanciamento objetivo dele. Logo podemos ouvi-lo falando conosco através das placas de limite de velocidade deste lado da estrada. Nós o reconhecemos nos pilares que sustentam a varanda de nossa casa e na calçada de concreto debaixo de nosso pés. Ele se torna uma presença viva em nosso mundo. Nossa cautelosa voz interior, os ossos do nosso corpo e a calçada de concreto são todas expressões da sua natureza. Saturno está dentro de nós e nós estamos dentro dele. Conforme exploramos a essência de cada planeta/deus/arquétipo e re-conhecemos suas presença vivas, sua autonomia, suas diferenças, lentamente começamos a ver que não somos esses ossos (Saturno) nem esse sangue (Marte) nem esse fígado (Júpiter)… Não somos esse intelecto (Mercúrio), nem essas emoções flutuantes (Lua), nem esse ego (Sol), nem essas ações (Marte)… Nós não somos os deuses ou deusas que permeiam essas funções e estruturas. Neti, neti, neti. Não, não, e não mesmo. O que resta então? Você vê aonde isto leva? O estudo da Astrologia pode nos levar a descobrir e experimentar nossa natureza essencial, o infinito e imaginário solo do qual irrompem os deuses e deusas, e sobre o qual eles dançam sua dança. Astrologia se torna um modelo viável que leva à re-cogniçao do infinito, o Tao, nossa natureza de Budha, o Self.

Há muito poucas referencias em nossa literatura astrológica, sobre o valor psicológico/espiritual do estudo e prática da Astrologia para o astrólogo. As poucas que eu encontrei vêm da literatura astrológica indiana (jyotish). No contexto de uma aparente tradição de astrologia redutiva, descritiva e preditiva, muito poucos textos jyotish se referem a possibilidade de ver desde a fachada da profissão até o seu âmago. Alguns textos sugerem que uma vida de estudo e prática astrológica, pode levar à abertura dos nadis jyotish ( os nadis, em número de 72.000, são os canais através dos quais a força da vida flutua, segundo a Kundalini Yoga), após o que, o mapa se torna supérfluo, e o jyotish espontaneamente sabe a resposta de todas as perguntas propostas.

Jyotish mati pragya é uma frase rara, talvez descritiva dos resultados da abertura dos nadis jyotish, referindo-se à obtenção, através do estudo e prática astrológica, de um estado de refinada inteligência que sabe só a verdade.

Essas obscuras referencias, das tradições espirituais de uma outra cultura, podem ser difíceis de lidar, para nós. Possivelmente podemos compreender esse processo em termos do nosso crescente reconhecimento dos deuses e deusas que povoam nossas paisagens interna e externas. Entretanto, eu suspeito que os jyotish podem estar se referindo não apenas a um processo de desenvolvimento, que se estende por toda uma vida de prática, mas também a um processo específico, que ocorre dentro do astrólogo, durante uma consulta individual. Só posso discutir esse processo em termos da minha própria experiência com consultas de mapas. Faço isto com grande temor, por razões óbvias. Eu normalmente olho para um mapa por uma hora mais ou menos, no dia anterior à consulta, para obter um sentido de padrão do mapa, e para deixar o mapa calar em mim. Olho para ele, até que tenha obtido um sólido sentido do mapa como um todo. No dia seguinte, quando sento com o cliente, eu inevitavelmente me vejo sentindo como se eu estivesse começando a arranhar o mapa de novo, sem saber nada, sem nenhuma idéia de como obter o sentido de totalidade de ontem, ou de como captura-lo com palavras. Eu me sinto totalmente perdido, completamente incompetente, uma desonra para a profissão e para os deuses. Eu não apenas sou incapaz de conduzir o cliente à imagem de sua alma, eu mal posso achar meu caminho através dos rudimentos da Astrologia. De algum jeito, eu reuno a coragem para começar a falar, e mergulho no mapa por algum lugar que, eu espero, conectará prontamente com a experiência do cliente.

Um dos mais freqüentes comentários que eu escuto dos estudantes de Astrologia é que, quando confrontados com um novo mapa, eles não sabem por onde começar. Eles não sabem por onde entrar no mapa. Eu normalmente os surpreendo quando digo que essa é uma experiência maravilhosa. A carta é uma representação simbólica da imagem de semente da alma. É representada na forma de mandala, na forma da quadratura do círculo, um símbolo de totalidade. Esse “não saber por onde começar” é uma expressão do reconhecimento de nossas almas, da totalidade que o mapa representa. Penetrar naquela imagem-semente requer que nós quebremos a inteireza ou totalidade em partes, quebremos a simetria, e ritualmente, desmembremos a imagem da alma. A alma hesita em iniciar esse ato sacrificial.

Nesse contexto, eu tenho ainda que conceber a mim mesmo como um sacerdote realizando um ritual. Tendo a sentir-me mais como um ladrão à noite, talvez (no meu mais inflamado) como Prometeu roubando nos domínios dos deuses, para trazer o fogo para a humanidade. Quando eu penso na entrada no mapa dessa forma, começo a imaginar o meu “não saber” como um mergulho no rio Letho, o rio do esquecimento, antes de entrar no Outro Mundo, e meu medo e temor, como respeito, baseado no profundo reconhecimento da sacralidade do ritual, e da minha iminente entrada nos domínios dos deuses.

Depois de eu ter entrado no mapa, explorando primeiro um símbolo, depois outro, as peças começam a se encaixar sozinhas. Eu acrescento mais e mais, recebendo feedback do cliente enquanto prossigo, e a síntese acontece, e começa a tomar vida própria. O momentum dentro de mim forma como que uma tempestade de verão e, eventualmente, atinge uma intensidade crítica, enquanto me aproximo de um limiar que eu não posso ver. Então, muito de repente, as peças caem nos lugares numa fração de segundo. Isso freqüentemente resulta numa experiência de ”Ahá” recíproco, para mim e meu cliente, que está suportando a mesma tempestade nesse processo. Freqüentemente, nesse ponto, posso colocar o mapa inteiro, ou algum problema mais complexo do mapa, em perspectiva, com apenas uma simples frase ou imagem que repercute profundamente no meu cliente. Parece que o céu se abriu para nós, derramando torrentes de chuva purificadora. Essa experiência me esgota tanto, quanto as experiências contadas pelos corredores que cruzaram a linha de chegada de um enduro, ou a experiência transcendente (Chamem isso de “Zen e a arte da consulta astrológica”). Quando o mapa se encaixa para mim desse modo, eu experimento um estado no qual eu sei que, o que quer que eu diga sobre um mapa, é verdadeiro. Meu intelecto está resoluto, fundamentado na verdade da alma.

Eu penso nessa experiência como tendo lugar, de alguma pequena forma, no processo de criação da psique individual, do desmembramento e projeção da imagem-semente, até a recordação da totalidade. Agora, quando eu leio sobre as partes desmembradas de Osiris sendo espalhadas, e a jornada de Isis para recolhê-las, para reuni-las, e ter a alma de Osiris chamada de volta para o cadáver reconstituído, eu sei a que esse processo se refere, psicologicamente. Eu posso rever as poucas horas gastas com um cliente e delinear o desmembramento, a árdua jornada reunindo as partes, juntando-as novamente numa totalidade, e então, o momento quando o cadáver volta à vida.

A frase ou imagem que resume a carta, é o mantra que trouxe a imagem à vida, que conectou as partes à alma.

Não quero sugerir que essa é sempre a minha experiência, por quaisquer meios. Tão freqüentemente ou não, eu me perco em reunir as partes, ou ponho o braço onde vai uma perna. Ou me sinto menos como Prometeu num drama cósmico e mais como Gene Wilder no filme Frankenstein de Mel Brooks, reclamando uma saída para o telhado, gritando e rezando para um relâmpago fazer funcionar o aparato para trazer a criatura à vida…

Há certamente muitas outras áreas para explorar na discussão do impacto da Astrologia na alma do astrólogo. Suspeito que essa discussão é importante para o profissional de Astrologia. Se se prestasse mais atenção em como a Astrologia pode aprofundar nosso contato com nossas próprias almas, talvez então, estivéssemos numa posição melhor para ajudar nossos clientes na exploração das suas. Talvez nossa busca interminável por mais um livro ou fonte de informação que, finalmente, nos daria uma margem no nosso desejo de impressionar nossos clientes com nossas habilidades descritivas ou preditivas, seria reconhecida como a busca do carneiro almiscarado pelo seu próprio cheiro.

Eu não escrevo isto para ofender. Escrevo isso como um lembrete de que, o dom mais precioso que você e eu, como astrólogos, oferecemos aos nossos clientes, é a nossa própria alma.

Michael McLay pratica Astrologia arquetípica com bases nos princípios de Jung.

Sobre o Autor

CNA (Central Nacional de Astrologia)