Astrologia Clássica – CNA Central Nacional de Astrologia | Hub > Conteúdo > Pesquisa > Estudos https://cnastrologia.org.br Unindo céus e terras e compartilhando saberes Wed, 11 Nov 2015 16:45:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://cnastrologia.org.br/wp-content/uploads/2024/11/cropped-favi-32x32.jpg Astrologia Clássica – CNA Central Nacional de Astrologia | Hub > Conteúdo > Pesquisa > Estudos https://cnastrologia.org.br 32 32 A Doriforia na Astrologia política https://cnastrologia.org.br/a-doriforia-na-astrologia-politica/ https://cnastrologia.org.br/a-doriforia-na-astrologia-politica/#respond Wed, 11 Nov 2015 16:45:36 +0000 https://cnastrologia.org.br/?p=4207 Doriforia é um interessante conceito que remonta aos primórdios da Astrologia, quando se vivia na era dos imperadores e reis. No Egito,Babilônia, China, o monarca era tido como um deus encarnado. Então, nada mais natural que tomar o Sol e a Lua, os astros mais brilhantes, como representantes deste poder alinhado com o céu.

Os planetas na Astrologia antiga foram classificados sob duas divisões, planetas noturnos e diurnos: a divisão diurna ou” seita” diurna, na qual se inclui  o Sol, Júpiter e Saturno e a divisão noturna, com Lua,Vênus e Marte. A própria interpretação de um mesmo posicionamento ou aspecto planetário era vista sob diferente prisma  tivesse  o nativo nascido de dia ou à noite.

Doriphoros em grego significa os que portam a lança, uma alusão aos guardas do rei. Também tem relação com o rei e seu séquito, os que fazem cortejo a ele.

O astrólogo Hephaistio de Tebas escreveu sobre a carta do Imperador Adriano, mencionando a Doriforia

Ptolomeu, em seu Tetrabiblos, no livro IV, nos apresenta um modelo interpretativo que permite deduzir se o nativo será rei  e elenca uma série de requisitos para tal, começando pela presença dos luminares em signos masculinos e nas casas angulares amparados pelos demais planetas; outra alternativa seria os planetas que ´´guardam´´ os luminares estarem por sua vez angulares.

Em seguida, apresenta sucessivas condições que permitiriam deduzir graus decrescentes de influência para o nativo, indo portanto do reinado até o nível mais baixo da escala social.

De acordo com a natureza essencial dos planetas que fazem a guarda ao Sol ou à Lua, seria possível deduzir características que favoreceriam a ascensão ou classes de pessoas que dariam suporte ao governante.Os planetas diurnos estariam melhor capacitados para dar suporte ao governante se posicionados até 90 graus atrás do Sol, ou seja, em signos anteriores a ele.

Já os planetas noturnos, até 60 graus após a Lua.Um fator chave na dedução da qualidade do suporte, apoio e segurança possuídos pelo governante seria a dignidade ou debilidade acidental dos planetas: tradicionalmente, planetas em domicílio ou exaltação predispõem a condições mais seguras e estáveis, enquanto planetas em detrimento ou queda, à insegurança , instabilidade ou mudança para o nativo.

Por exemplo, suponhamos que Marte esteja situado atrás do Sol dando-lhe suporte: Marte pode representar militares; dependendo da condição do planeta tais militares podem tanto dar como retirar o apoio.

É o  caso do presidente chileno Salvador Allende: tinha Sol em Leão e Marte em Câncer e foi destituído do poder mediante um golpe militar, em 1973. O mesmo aconteceu recentemente com o presidente do Egito, Mursi, portador da mesma  configuração astrológica, e Fernando Collor de Mello, no Brasil.

John Kennedy tinha em sua natividade Marte no signo de Touro, na casa 8, atrás do Sol em Gêmeos: não completou seu mandato e morreu assassinado.

Houve variações ao longo da história da Astrologia com respeito a como se deve considerar a Doriforia na carta, mas foge ao escopo do presente artigo detalhar isso, prefiro me ater ao modelo mais simples para que o leitor tire melhor proveito da técnica.

Meu colega Rui de Sá, com propriedade, afirmou em comunicação privada  que em virtude da separação entre governo e estado vigente na época moderna, o Sol não representaria mais o governante, um ocupante de posto efêmero, mas sim o regente do Meio do Céu teria este papel dentro da Astrologia Mundial.

O Sol seria então a elite política, intelectual, os empresários etc., algo mais perene. Certamente, para o fim da investigação astrológica sobre o poder, não deveríamos deixar de lado a investigação sobre o MC nos mapas astrológicos.

 

O caso de Richard Nixon

Nixon foi um presidente americano que renunciou ao cargo em virtude de um escândalo de espionagem envolvendo adversários políticos, o escândalo de Watergate. Se olharmos sua carta, podemos notar Júpiter em seu signo de queda, Capricórnio, situado antes do Sol, fazendo cortejo a ele [outro nome para a Doriforia] e Vênus exaltada em Peixes situada após a Lua, fazendo cortejo a esta.

Nixon foi eleito quando o Asc por direções primárias estava em aspecto  com Vênus, aproximadamente a quatro graus de Escorpião; um planeta em aspecto com o Asc dirigido torna-se regente da vida do nativo e mostra circunstâncias que este encontrará: Vênus, um benéfico exaltado, angular por signo e em conjunção com uma brilhante estrela  fixa , a real Fomalhaut, aponta a felicidade, conforto, estima e poder que desfrutou em consequência de sua eleição para presidente, já que faz Doriforia à Lua, principal luminar [ele nasceu à noite], preenchendo a condição apontada por Ptolomeu.

Júpiter, por sua vez, está em condição problemática, mostrando um suporte instável para o Sol: em outras palavras, não favorece a permanência no poder por tempo mais prolongado.Como ele cumpriu um mandato e foi reeleito para o cargo, poderíamos esperar algum problema ameaçando seu mandato, tendo em vista a teoria da Doriforia.

Júpiter significa os juízes e em termos de conduta ,a boa fé, a confiança, a sinceridade – a condição problemática do planeta mostra a possibilidade de interrupção do mandato por questões legais, a perda de confiança e capital político: Nixon foi considerado mentiroso e tentou acobertar provas de seu crime de espionagem dos adversários, do partido democrata,  e ameaçado por um impeachment , foi levado  a renunciar ao cargo de presidente.

Nesse caso, a ativação de Mercúrio e Júpiter, os planetas em Capricórnio que estão orientais ao Sol, fazendo cortejo a ele, poderia ser calculada tomando os 30 anos de Saturno, regente de Capricórnio,

Somando às idades dos planetas, Júpiter – 12 e Mercúrio – 20 = 30+12+20=62.[1] Isto corresponde à idade entre 61 e 62 anos, época da crise que ora comento. Esse é um procedimento corrente na Astrologia antiga para determinar quando uma  dada configuração na carta torna-se ´´ativa´´ na vida.

Nixon foi eleito para o segundo mandato quando Júpiter fazia seu retorno por trânsito justamente em Capricórnio, o trânsito antecipando a crise que viria a seguir.

Um evento cósmico impactante e que antecipa sua renúncia foi o eclipse que se deu em 24/12/1973;  esse eclipse  foi visível na capital dos Estados Unidos e cai em cima de Júpiter na carta de Nixon, a um grau de distância da conjunção exata. Veja na sobreposição a seguir:

Eclipse Solar Anular 01

 

 

 

O eclipse teve duração de duas horas, aproximadamente, o que aponta que sua influência persistiria por dois anos, de acordo com os parâmetros tradicionais. Segundo estipula Ptolomeu,os efeitos do eclipse atingem sua culminância de acordo com a proximidade aos 3 ângulos principais: Asc, no primeiro terço da influência; MC, no segundo terço e casa 7 no último terço. Como se deu perto do MC, o ápice da influência foi no segundo terço, ou seja, de 8 a 16 meses após a data.

De fato, Nixon renunciou em Agosto de 1974, 7 meses e meio após o eclipse. Podemos notar que o regente do Eclipse é um maléfico retrógrado e em signo de detrimento, Saturno, pressagiando condições críticas e adversas ao país: tanto o eclipse como seu regente incidem sobre Júpiter, refletindo a perda de suporte e capital político do presidente .

No caso de Dilma Roussef,  presidente do Brasil, sua Doriforia do Sol contém Júpiter em domicílio, em Sagitário, tendo mais duas dignidades adicionais: a própria triplicidade e em seus próprios termos ou confins. Por outro lado, Mercúrio, atrás do Sol, em detrimento em Sagitário, reflete a ameaça de Impeachment que enfrenta atualmente.

Marte, na casa 12 por  quadrante mas no que concerne a avaliação pelos astrólogos antigos, considerado na casa 1, porque se encontra no mesmo signo do Ascendente [aqui, hipoteticamente, tomo Virgem como seu Ascendente, fruto de um trabalho de retificação do horário de nascimento que levei a cabo).

Para a Lua na carta de Dilma, sua Doriforia envolve Vênus em Capricórnio que se encontra dignificado em seus próprios termos (termos egípcios – o planeta na porção de Capricórnio que é regida por Vênus). Um planeta em seus próprios termos era considerado em condição que se equiparava ao domicílio, para astrólogos antigos como Firmicus Maternus, embora tenha adquirido status de dignidade menor na Idade Média.

Júpiter está a cerca de dez graus de distância do Sol,porém sete dias depois do nascimento fez sua primeira aparição, brilhando no céu antes da aurora. Isso é importante em Astrologia antiga, recebe o nome de Ascensão Heliacal: o planeta ascendia acima do horizonte leste; o Sol, que é mais rápido se afastava dele e  Júpiter aumentava  seu poder  e brilhava cada vez mais.

 Um planeta em elevação heliacal é uma dignidade acidental, expressa o melhor de suas qualidades. O que seria esse Júpiter perto do Sol? Um planeta perto do Sol fica invisível, ou seja, está á Sombra dele. Quem é o Sol? Um homem poderoso, um mentor. Dou um doce para quem adivinhar quem é esse homem poderoso para Dilma: sim, é o ex- presidente Lula.

Portanto, à luz da Astrologia antiga, fica muito claro, ainda que se o Ascendente não seja de fato Virgem: Inicialmente obscurecida frente a um mentor, homem poderoso, em etapa posterior [representada pela semana após o nascimento, quando Júpiter começa a brilhar no céu] ela própria viria a ter grande poder , brilho próprio.

 Como escrevi, o Sol tem como séquito Júpiter, e Saturno poderia eventualmente ser tomado, pois aspecta Júpiter por trígono de signo. Mas e quando se tem Marte, planeta noturno, fazendo cortejo ao Sol, em quadratura por signo a este último, como é o caso?

Dilma foi eleita presidente quando Marte por progressão secundária estava em proximidade com a estrela Regulus, o que  confirmaria a Doriforia. Aliás, trata-se de fato que pode ser constatado pelo leitor: presidentes eleitos muitas vezes apresentam em suas cartas  direções ou progressões  unindo pontos importantes da natividade a estrelas  brilhantes  no céu.

Certamente, para um rei da antiguidade seria perigoso ter em sua base de apoio pessoas que não fossem de seu séquito. Poderia sofrer conspirações. Na política de hoje, significaria alianças, por vezes traiçoeiras. Dilma tem na sua base de sustentação alianças, inclusive com políticos que pertenceram ao  regime militar[Marte], e atualmente enfrenta um difícil período no que tange a sua aliança com o PMDB.

Levando em conta que há um planeta em debilidade situado atrás do Sol, fica explicado para Dilma o risco de perda de capital político  e encerramento do mandato antes de seu término; porém, o dispositor de Mercúrio, Júpiter, encontra-se domiciliado, em dignidade essencial; também está prejudicado pela proximidade ao Sol, a combustão, a pior aflição que um planeta pode enfrentar. É uma condição ambivalente e complexa: ela enfrenta a pressão do poder judiciário, ameaçando-lhe o mandato, por algum suposto crime cometido: Júpiter representa os juízes – e ela está sendo investigada em dois tribunais, o TCU e o TSE.

Ao mesmo tempo, a dignidade por signo de Júpiter pode representar que justamente possa ser salva pela ação de juízes ou homens eminentes, [por exemplo o STF, barrando um processo de impedimento, caso seja instaurado].  Júpiter pode significar ministros e justamente há pouco houve uma reforma ministerial com o intuito de fortalecer o governo.

Houve astrólogos no passado que afirmaram que um planeta em domicílio está protegido da combustão, não proporcionando dano; outros, como Abu Ma´ Shar, negaram essa possibilidade. De acordo com o desfecho da crise atual, teremos a oportunidade de colocar à prova uma ou outra dessas afirmações.

Mapa astral Dilma Roussef 02

 

Nota:1] A cada planeta é atribuída uma idade planetária, combinando estas idades podemos antecipar quando as configurações astrológicas sinalizarão  eventos concretos na vida. Eis suas respectivas idades: Saturno- 30 anos; Júpiter- 12; Marte- 15; Sol- 19; Vênus- 8; Mercúrio- 20 e Lua- 25.

Nota:2] Os astrólogos da antiguidade não apontaram em seus livros quais fatores astrologicos poderiam antecipar a queda dos reis; fizessem isso seriam executados pelos governantes – Firmicus Maternus chega a proibir expressamente em seu livro que se faça especulação sobre a vida do imperador- decerto uma medida de precaução,mostrando obediência ao governante. As deduções sobre queda de governantes aplicando a Doriforia são fruto de investigação pessoal.

Nota:3] O articulista não pretende que a aplicação da técnica da Doriforia forneça a palavra final sobre assuntos de poder. Espera-se que seja usada juntamente com as ferramentas conhecidas da Astrologia mundial: conjunções e aspectos entre Júpiter e Saturno, ingressos solares, lunações e eclipses, etc.

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Estrelas esquecidas: a redescoberta do "Astronômica" de Manilius https://cnastrologia.org.br/estrelas-esquecidas-a-redescoberta-do-astronomica-de-manilius/ Wed, 12 Jan 2011 16:46:32 +0000 https://cnastrologia.org.br/site/?p=826 niversidade de Colúmbia, Nova York, 24-25 de outubro de 2008

Organizado por Katharina Volk ( Columbia ) e Steven Green
( Leeds )

 Roda do zodíaco: mosaico de uma sinagoga do século VI, Beit Alpha, Israel

Uma grande conferência internacional sobre a “Astronômica”, de Manilius, a primeira no mundo de fala inglesa, será realizada na Universidade de Colúmbia entre 24 e 25 de outubro de 2008.

A “Astronômica”, de Manilius é um poema estóico didático sobre Astrologia em cinco volumes; acredita-se que tenha sido composto entre os anos de 9 e 16 d.C. sob Augusto e Tibério. O poema oferece grande oportunidade para um amplo estudo acadêmico em termos de estilo e intertextualidade (NT: um diálogo entre textos), de fundamento filosófico, intelectual e sócio-político. Ainda assim, com poucas e notáveis exceções, o poema foi solenemente ignorado, especialmente pelos acadêmicos de língua inglesa, cujo silêncio poderia sugerir submissão ao antigo ponto de vista de que a “Astronômica” é de difícil leitura e digestão e/ou cheia de contradições e omissões e erros astrológicos.

A conferência quer trazer de volta esse negligenciado poema ao centro acadêmico e reunirá um painel internacional de latinistas, historiadores da ciência e especialistas em recepção para mostrar o autor e sua obra a partir de vários ângulos diferentes.

O encontro será gratuito e aberto ao público. Com exceção dos palestrantes, os demais participantes terão que tomar sua próprias providências quanto às acomodações.

A conferência está sendo patrocinada pela generosidade de Marvin Deckoff.

Se tiver alguma pergunta sobre o encontro, por favor, envie um e-mail para os organizadores nos endereços:

Katharina Volk (kv2018@columbia.edu)
Steve Green (s.j.green@leeds.ac.uk)

Cosmo e império: as digressões de “Astronômica”

(1.758-804, 3.443-482 e 4. 585-805)

Todo acadêmico conhece a importância da digressão na poesia didática, mas, com exceção do epyllion (NT: curto poema épico narrativo) de Andromeda (5.538-618, sobre o qual existe extensa bibliografia) e, em menor escala, a Via Láctea (Landolfi:1990), a digressão dos primeiros quatro livros de “Astronômica” recebeu bem pouca atenção. O objetivo desta tese será propor uma nova interpretação de 1.758-804, 3.443-482 e 4.585-805 (Abry, 2000), primeiro questionando a possível relação com as três grandes realizações do Principado (Romano) de Augusto (o Forum Augustum, o Solarium Augusti, atualmente conhecido como Obelisco de Montecitório, e o mapa do mundo de Agripa, ou “Porticus ad Nationes“), depois argumentando que as digressões dos livros 1 e 4 são formuladas da mesma maneira, com um clímax paralelo entre a “família dos Júlios” e o destino de Roma. Esta análise mostra um grande comprometimento com o discurso de Augusto, ainda que Manilius, ao contrário de Ovídio, não faz menção alguma a esses monumentos. Serão propostas algumas razões para esse silêncio.

Digressões, intertextualidade e ideologia no poema didático: o exemplo de Manilius

Um traço característico do gênero didático é a inclusão de digressões como se fossem peças de um cenário, diferenciadas mais ou menos claramente do material expositivo adjacente. Junto com as passagens descritivas que freqüentemente aparecem no início e no fim de livros ou poemas, tais digressões têm sido normalmente consideradas pelos críticos como floreados ornamentais, feitos para alterar a textura poética do trabalho e para agir como uma espécie de marcador de pontuação, que dá ao leitor ou estudante uma pausa na lição didática. Este ensaio vai argumentar que tais digressões podem na verdade ser vistas como parte da essência ideológica do poema didático, servindo como uma espécie de local de intenso entrosamento intertextual com trabalhos mais antigos da mesma tradição.

Seguindo esta linha de interpretação que vê a intertextualidade como fundamental para a construção de um sentido e a formação e desenvolvimento do gênero, o ensaio vai explorar três passagens dos Livros 1 e 3 da “Astronômica” de Manilius, em relação a uma série de intertextos (textos literários já existentes em relação a outros textos) didáticos. O trabalho começa com uma breve história da civilização, localizada no prefácio ao Livro 1 (66–112). Alguns acadêmicos (como Lühr, 1969, Effe, Romano) observaram conexões literais tanto com “DRN” (“De Rerum Natura“), de Lucrécio, como com as “Geórgicas”, de Virgílio, mas estudos anteriores tinham tendência a considerá-las ecos de um único predecessor didático, interpretando-as como influência direta ou, no máximo, como oppositio in imitando (substituição de um termo original por outro de sentido oposto). Pode se argumentar que variações sobre o tema do “Mito das eras” são básicas e recorrentes no gênero, a partir de Hesíodo, e revelam uma forte tendência ao entrosamento mútuo em um nível ideológico, tanto que a variação de Manilius sobre o tema deve ser compreendida efetivamente como uma resposta a toda a tradição – não apenas aos predecessores imediatos romanos do poeta. Pode-se dizer que Manilius (e seu leitor) receberam o “Mito das eras” de Hesíodo como uma combinação complexa, modificada por camadas cumulativas de comentários adquiridas ao longo dos trabalhos de Empédocles, Aráteno, Lucrécio, Virgílio e Ovídio. Desta forma, a história da civilização serve como um meio para o poeta situar seu trabalho em relação à estrutura moral, filosófica e (num sentido mais amplo) política: a maestria de Manilius na tradição didática surge simultaneamente a e se apresenta implicitamente como análoga à superioridade do mundo físico, empregada pelo deus (estóico) e seus líderes ou chefes como contrapartida terrena.

Uma análise detalhada desta passagem será complementada por uma breve discussão de mais duas digressões. Goold observa, a propósito do último tópico do primeiro livro, cometas e meteoros, que sua “relevância astrológica é insignificante”, ainda que a noção de que cometas possam agir como presságios de desastres dê a Manilius outra oportunidade de um estreito entrosamento intertextual com seus predecessores, em especial com “A peste de Atenas”, de Lucrécio e a parte final das “Geórgicas 1” (Astr. 1.874–926; discussões existentes –Lühr 1973, Landolfi –tende a interpretar também esses ecos em termos tradicionais de influência/reação a modelos específicos). Descrições das estações são outra virtual sine qua non do gênero, representadas em “Astronômica” por uma curta série de vinhetas em 3.625–67: também aqui ecos intertextuais podem ser vistos com complexidade considerável e peso temático que parecem, à primeira vista, uma mera passagem decorativa. Em todos esses casos, a integração que Manilius promove das vozes díspares das tradições pode ser vista como um espelho, em um nível metapoético, refletindo a ordem e a interligação do cosmos descrito pelo poema.

A poética e a política da ausência horoscópica na “Astronômica” de Manilius

Este ensaio argumenta que a dificuldade para se compreender Manilius não é algo que deve nos deixar – a nós, acadêmicos modernos – embaraçados, nem deve ser vista como um obstáculo moderno a ser removido para que se possa descobrir as verdadeiras intenções e lições do trabalho de Manilius. Ao contrário, a dificuldade é essencial em “Astronômica”, ou pelo menos uma importante parte da obra: a inabilidade para compreender a lição está descrita claramente no poema quando ouvimos, pela primeira vez na poesia didática, o leitor/aluno interromper o professor para expressar sua patinação na obscuridade mental (4.387-9). Eu continuo com a argumentação de que essa dificuldade de compreensão é estratégia deliberada que acomoda tanto o desenvolvimento dinâmico do gênero didático como o contexto sócio-político da Astrologia nos primórdios do século I DC, na Roma Imperial.

[tirado de: http://www.solarnavigator.net/history/astrology/sagittarius.htm]

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