Astrodramaturgia – para começo de Conversa

11 de Janeiro de 2011 Artigos, Diversos: a partir de janeiro/2010 Comentários desativados em Astrodramaturgia – para começo de Conversa

Todos nós, astrólogos, estamos cientes e fazemos uso da narrativa em nossa prática cotidiana. Quando, por exemplo, expomos para nossos clientes uma associação entre Mercúrio e a comunicação, o ensino e as viagens, temos como pano de fundo a história do deus grego que levava as mensagens de Zeus, tendo asas nos pés e em seu capacete. Quando queremos ilustrar algumas características de Aquário, recorremos por vezes ao mito de Prometeu e seus ideais comunitários. E ainda há os casos em que tentamos adivinhar o signo de personagens famosos: seria Batman escorpiano ou capricorniano? Chapeuzinho Vermelho é mesmo ariana? Sem contar que, metaforicamente falando, temos que contar aos nossos clientes a história que está presente em seu mapa astral.

A história do mapa astral deixou de ser uma metáfora para mim há uns dois anos, no dia em que, ao analisar um mapa, tive a intuição de que se tratava do mapa de Cinderela. Quando eu comecei a fazer relações entre Astrologia e Dramaturgia, uns cinco anos atrás, eu pensei que tudo se resumiria a associar planetas a papéis, casas a cenários e aspectos a ações dramáticas. Eu não esperava dar de cara com os personagens. E foi ainda com surpresa que, poucas semanas após Cinderela, apareceu-me, também intuitivamente, o mapa de Perséfone. A partir daí, ao invés de depender exclusivamente da intuição, passei a procurar por personagens nos mapas de meus clientes. Desde então, já atendi A Mulher-esqueleto, E o Vento Levou, Branca de Neve, O Mágico de Oz, Wolverine, Zeus, As Amazonas, Buda, A Noviça Rebelde, O Barba Azul, entre outros filmes, contos de fadas e até grandes personalidades históricas. Resolvi então esboçar a Astrodramaturgia em um artigo que foi publicado em Constelar: http://www.constelar.com.br/constelar/116_fevereiro08/casocinderela1.php

A identificação do personagem/história acontece por meio da investigação das pistas deixadas no mapa astral. O posicionamento dos planetas, por signo e por Casa, nos indica as características e o habitat de cada personagem. Os aspectos revelam as interações entre os personagens e nos permitem deduzir a história a que eles pertencem. O mapa nunca revela um único personagem, mas uma história, uma trama de ações articuladas. O Sol, em um mapa astral, pode nos indicar o herói, o protagonista, mas o cliente não se resume a ele. Todos os personagens daquela história são o cliente. Em alguns casos, de forma internalizada; em outros, projetivamente.

Para o astrólogo, identificar a história é contar com um poderoso instrumento de síntese para comunicar ao cliente a inteireza do seu mapa. Os aspectos aparentemente contraditórios de um mapa astral revelam sua conexão pela posição que ocupam na história. Já para o cliente, a história funciona como um meio de meditação sobre suas dinâmicas interiores e exteriores. O cliente não precisa dominar a linguagem astrológica para refletir sobre as informações abundantes que nós, astrólogos, lhe passamos e que, muitas vezes, não são assimiladas completamente na memória.

Algumas vezes, a identificação é imediata, como quando a mulher de uns 50 anos, para a qual eu interpretei Branca de Neve, me confessou que tinha uma única fantasia em seu guarda-roupa, justamente a desse personagem. Outras vezes, o cliente resiste: a história lhe parece muito elevada, ou muito trágica, ou muito simples. Erro de identificação do astrólogo? Baixo autoconhecimento do cliente? Ou apenas um tempo desfavorável para ouvir e contar aquela história? A Astrodramaturgia ainda é recente, e há muito a ser pesquisado.

Vale um aviso. A Astrodramaturgia não deve ser confundida com o Astrodrama, que é uma abordagem mais antiga, da década de 70 do século XX, e que consiste em dar vida aos arquétipos pela encenação de elementos astrológicos. Enquanto o Astrodrama trabalha no palco, digamos assim, a Astrodramaturgia acontece nos bastidores. O Astrodrama foca-se na atuação, enquanto a Astrodramaturgia, no enredo. Pelo Astrodrama, ficamos mais próximos dos atores. Pela Astrodramaturgia, nossa proximidade maior é com o roteirista. Embora sejam abordagens distintas, há um grande potencial de complementação entre as duas.

Para compartilhar essa nova abordagem com meus colegas astrólogos e com aqueles estudantes de Astrologia que já estão em fase de sintetizar as informações de um mapa astral, decidi abrir uma oficina permanente de Astrodramaturgia, baseada em estudos de casos, para que possamos todos juntos firmar as raízes dessa pequena semente de interpretação astrológica, uma abordagem que prioriza o sentido. Afinal, é mais fácil atuar nesse grande drama que é a vida quando tomamos consciência dos papéis que costumamos representar e daqueles com que costumamos contracenar.

Eduardo Loureiro Jr. (edoardo@patio.com.br)
Astrólogo autodidata. Graduado em História, com mestrado e doutorado em Educação, além de formação em Dramaturgia. É webmaster do site O Pátio (www.patio.com.br), cronista e autor de livros infantis. Reside atualmente em Brasília, realizando atendimentos também em Fortaleza e Teresina, bem como via internet.

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