Caçadores de Mágoas – o último texto de Val Benedetti

atualizado em 27/12/11 | Comentários desativados


Mágoa
Fragmentos de quimeras
Estilhaçam-se no meu peito
- Eternamente
Rita Sá

Hoje despertei sentindo a tristeza me cercar. Como uma nuvem, como uma névoa densa, colando-se ao meu corpo, incômoda, inconveniente, desnecessária para a vida. A água morna do chuveiro não foi suficiente para lavar esse estranho sentimento. Fui colocado involuntariamente na condição de ter que pensar no assunto. Bem, tinha mais o que fazer, mas não adianta adiar os apelos do interior. Se soubermos ouvir e reconhecer as necessidades do espírito, estaremos nos poupando de acumular inadequações que, cedo ou tarde se manifestarão através de posturas inadequadas e manifestações sombrias. Enfrentar e respeitar os apelos que vem de dentro é um dos caminhos para irmos em direção à vida saudável e feliz, creio eu.

A palavra mágoa surgiu no écran de minha mente. Piscando como um néon que se destaca nas luzes da cidade e se reflete distorcido em cada poça de água, cada recanto úmido do espaço interior, refletindo a palavra e seu poder implícito. Focalizei minha atenção no luminoso piscante e permiti que a palavra deslizasse através de todos os canais de percepção abertos nesse momento. O ato de refletir se parece um pouco com isso, capturar com o pensamento as luzes que se refletem nas águas internas do ser. E água é a palavra chave para entendermos a tal da mágoa.

A mágoa é um sentimento que fica agarrado à memória. Precisa de lembranças, precisa de um constante recordar do momento e do movimento gerador, o instante exato em que permitimos que o veneno invadisse nosso corpo. Por isso, pela necessidade da memória para que as mágoas se sustentem, a Lua passa a ter a função astrológica de ser um agente, um mantenedor da mágoa, exatamente por representar e significar a função da memória, além de reger o fluxo da água através de nosso ser, as marés que flutuam em nossa vida.

Jean Yves Leloup propõe que “perdoar é não cristalizar o outro naquilo que ele fez”. Essa experiência de cristalizar um gesto, uma intenção, uma atitude do outro é totalmente subjetiva e significa uma impressão nos arquivos mnemônicos da pessoa, um tipo de registro aparentemente indelével. Cristalizar o gesto do outro, registrar e permitir que a lembrança permanente desse gesto seja um veneno que contamine aquilo que é naturalmente puro e íntegro dentro de nós, é a mágoa, a má água, e sua expressão mais corrente e comum, o ressentimento, que significa ficar remoendo as experiências, insistir e escolher o sofrimento por aquilo que não achamos justo e correto, pelo mal que supostamente foi feito à nossa pessoa e que feriu nossa sensibilidade.

Quantas mágoas inúteis guardamos, quantos cristais de sal muito amargo se formam dentro de nós, porque? Pensei muito nisso, em cada uma das mágoas que afloraram nessa manhã e que estavam querendo me deixar sombrio e triste, e fui conduzindo meu pensamento até chegar à conclusão que todas as mágoas que eu tinha, tudo aquilo que tinha se transformado no veneno do ressentimento dentro de mim e que estavam gravados na memória como as marcas de ferro em brasa que se faz no gado, enfim, percebi e constatei que a mágoa e seus derivados provêm da mesma fonte: a importância pessoal.

Esse sentimento chamado de “importância pessoal” é um dos condicionamentos mais fortes e prejudiciais de nossa cultura. É semeado desde muito cedo em nossas vidas. É resultado da corujice de nossos pais, que por se acharem muito importantes, acreditam que seu filhos são mais importantes que os filhos das outras pessoas; é um jeito torto de amar atribuindo valores virtuais e absolutamente distorcidos àqueles que amamos, e também uma constante cobrança de que eles sejam como esperamos que sejam para merecer todo nosso amor.

Para corresponder à realidade ou ilusão daqueles que nos amam e para alimentar o amor e a atenção que eles tem por nós, precisamos nos colocar na condição de estarmos à altura desse amor e de sua expectativa de que sejamos grandes, importantes, e para isso desenvolvemos mecanismos de defesa e manutenção desse virtual padrão de importância e passamos a interpretar personagens totalmente artificiais, inflados de auto importância, vazios de sentimentos verdadeiros.

Quando surge em nosso ser um amor verdadeiro, um sentimento puro e real, não sabemos muito bem o que fazer com ele. Não fomos treinados para isso. Procuramos racionalmente encaixar esse sentimento em nossos parâmetros aprendidos de importância pessoal, e assim contaminamos o sentimento com nossos valores artificiais e transformamos algo que poderia ser belo e pleno em mais uma mágoa, mais um ressentimento. Isso acontece porque ao olhar distorcido de quem vive um personagem artificial, composto de julgamentos e preconceitos que nos foram impingidos na fase lunar da formação de nossa personalidade, qualquer coisa, qualquer experiência que venha de fora, qualquer sentimento parece ser alienígena e é reconhecido como algo que não está a altura de nossa presunção, não chega aos pés de nossa importância e da importância que papai e mamãe davam para a gente.

A palavra mágoa provém originalmente do latim, “macula”, que quer dizer mancha, nódoa. É a poluição que corrompe e contamina o espírito, que turva a água de nosso ser. O ressentimento é uma resultante da mágoa. É preciso ter sido magoado para poder ficar ressentido. Ambos os sentimentos estão ligados à Lua e seus significados essenciais. Mas não é apenas isso. A gente cresce, a mágoa continua – se não fizermos algo para limpá-la – e portanto, outros planetas começam gradativamente a representar a mágoa que nossa auto importância nos fez criar.

Toda pessoa que se expressa com freqüência de forma ressentida e que fica insistindo em sua mágoa, lembrando a traição que o “outro” cometeu, remoendo a desilusão e a frustração que as pessoas a quem ela tanto e se dedicou fizeram, dificilmente irá reconhecer que a fonte desse sentimento bem ruim está dentro dela mesma, e raramente percebe que esse eterno remoer de lembranças do que não foi só prejudica a ela mesma.
Estamos falando da Lua. Estamos falando de Vênus. Estamos falando de Netuno, os três grandes indicadores astrológicos da mágoa e do ressentimento, três planos, três oitavas de uma energia que para se manter dependem da memória e do registro na água do corpo – substância física e emocional.

As três oitavas da mágoa

Lua, morada da mágoa

A Lua simboliza o primeiro grau, o mais completo e o que envolve maiores possibilidades quando se trata de guardar na memória o eterno “não vivido” que se converte na amargura da mágoa. Estar magoado e deixar que o ressentimento nos possua sempre implica em alimentar lembranças, em se prender ao já acontecido, ou melhor, àquilo que gostaríamos que tivesse acontecido de um jeito e aconteceu como tinha que acontecer, gerando frustração, se transformando em mágoa, nos deixando ressentidos.

A fase lunar de nossa vida, a primeira infância, é quando desenvolvemos um padrão de importância pessoal, uma auto imagem que passamos a vida toda lutando para manter. Personagem que tem uma expectativa de si mesmo e que pretende atender a expectativa dos outros para sentir-se protegido, aceito, amado, e quando essa expectativa não é atendida, tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro, surge a frustração e a conseqüente mágoa como defesa e justificativa por aquilo que parece ser um fracasso da imagem construída.

Existe dentro de nós uma criança, uma parte pura e limpa que conserva a integridade e autenticidade dos seres naturais, e que é devidamente constrangida e reprimida por elementos culturais para que essa parte de nós, aquela que é livre e íntegra, não queira ocupar seu espaço no mundo, não venha transgredir a ordem falida que se apresenta como o que é certo. Essa criança que nos habita, o princípio da pureza possível, para se proteger das cobranças do mundo e não ser massacrada o tempo todo, cria couraças e padrões de comportamento artificiais para ela: o comportamento adulto e responsável que agrada a todos e que faz com que esse aspecto de nosso ser seja aceito sem grandes cobranças.

Astrológicamente esse arquétipo da criança que é tão fundamental para que possamos exercer algum tipo de liberdade, para que possamos aceitar o novo em nossas vidas, é representado pela Lua, a casa que ocupa, o signo, os aspectos envolvidos, a situação de seu planeta regente. Além da liberdade representada pela criança e sua facilidade em aceitar novas situações, está a memória, o arquivo das impressões, dos sentimentos vividos, dos traumas, dos recursos utilizados pelos formadores da personalidade, pais, professores, adultos em geral, para domesticar a criança e torná-la uma pessoa aceitável, um adulto respeitável.

Essa criança tem inúmeros motivos para se sentir magoada, ferida, ofendida por lhe terem usurpado a liberdade e exigido um amadurecimento artificial e forçado, como uma planta de estufa, impedindo seu desenvolvimento natural, impedindo que ela seja ela mesma e passe a ser o que esperam dela. Isso gera mágoa. Isso gera a pessoa que está sempre pronta a aceitar a vida como uma ofensa, uma agressão, um ato hostil que polui, que macula, que gera mágoa e cria o adulto ressentido.

Administrar essa mágoa, libertar-se dela, deixar de ser uma pessoa que carrega um estado de ressentimento constante com toda a realidade que percebe exige uma atitude enérgica: libertar a criança, permitir-se entrar em contato com essa criança e sentir-se livre e relativamente puro novamente. Podemos antever o quanto será criticada e cobrada uma pessoa que permita a manifestação dessa criança interior, e o quanto é difícil conseguir isso, a tal ponto que é mais fácil muitas vezes escolher a mágoa e o ressentimento, pelo menos a gente pode ser visto como um igual entre iguais. Todos ressentidos. Todo carregando no coração e nos ombros toneladas de mágoas infantis. Todos tendo que assumir um comportamento de adolescente que nunca cresceu e que reivindica coisas absurdas de um mundo que ele acredita que não o aceita como é.

Na verdade, enquanto essa criança interior não for confrontada e aceita, a própria pessoa é que não se aceita como ela é. É claro que tem que se sentir magoada, traída por si mesma, traída pela vida.

Vênus, escolhas que geram mágoas

Em outro plano da expressão da personalidade, encontramos Vênus e as expectativas simbolizadas por esse planeta.

As escolhas, todos os tipos de escolha, afetiva ou material, são representadas por Vênus. Quando um átomo de hidrogênio “escolhe” átomos de oxigênio para formar a água, essa escolha físico-química é regida por Vênus. Quando um homem escolhe uma mulher para amar e uma mulher escolhe um homem para amar, também o símbolo de Vênus está presente.

Os referenciais de escolha estão contidos na psique humana, são as experiências que se acumulam na memória, são os traumas, é o critério estético e ético que se construiu durante a história da vida. A Lua e seus significados anteriormente descritos está devidamente representada na base desses critérios, e por isso Vênus representa um degrau das qualidades simbolizadas pela Lua, uma “oitava”, um outro grau dos significados lunares, que necessariamente serão conteúdos das escolhas e da expressão de Vênus.

Se os critérios de escolha estão maculados por conteúdos da memória, e se existe mágoa nesses conteúdos, é natural que essas escolhas reflitam essa mágoa e sejam, consequentemente, fontes de maiores mágoas e ressentimento.

Existe também, nos critérios de escolha representados por esse planeta, conteúdos infantis não vividos, não elaborados. Expressões e potencialidades que nos foram arrancadas durante uma fase de nossa existência durante a qual não tínhamos defesas adequadas. Aquilo que por acaso tenha sido um impedimento do desenvolvimento natural de critérios, junto com o desenvolvimento natural e espontâneo dessa criança interior, vai acontecer em nossas vidas através de escolhas inadequadas e geradoras de transtornos, particularmente escolhas afetivas que nos trarão infelicidade e mais frustração.

A defesa natural que nossa auto importância nos impõe ao resultado de escolhas tortas e desajustadas na vida é atribuir aos outros, aos objetos de nossa escolha, a responsabilidade pelo fracasso resultante dessas mesmas escolhas, e a forma mais comum disso acontecer é nos sentirmos traídos e magoados por aqueles que obtusamente escolhemos. A culpa tende a ser sempre do “outro”, é mais tolerável assim.

O que nos resta, diante dessa circunstância, senão vivermos carregando ressentimentos de cada contato, de cada relação que experimentamos, especialmente porque a referencia, a premissa que sustentou a escolha e o principiar de cada relação é a de um olhar carregado de mágoa, carregado de dor e frustração por não ter podido nunca entrar em contato consigo mesmo, com sua verdadeira essência?

Existe a cura para essa mágoa, e essa cura consiste em escolher com o coração limpo, com o instinto e a intuição, com uma expectativa baseada na necessidade mais natural de trocar energia vital, em vez de eleger o objeto onde focalizar nossa afetividade tendo como parâmetros nossas dores e frustrações acumuladas desde a mais tenra idade, desde o momento em que abrimos mão de coisas essenciais para nos sentirmos aceitos e iguais a todo mundo. Precisamos aprender a escolher as coisas que podemos amar com os olhos límpidos da criança que nos habita, aquela que ainda pode ser livre e natural, aquela que sabe que o importante é viver e ser inteiro, em vez de achar que o importante é ser aceito por fazer o jogo dos outros.

A criança assustada e contida escolhe apenas coisas pequenas, que não a ameacem, que não afetem em nada o complicado equilíbrio emocional que a mantém atada aos valores afetivos que lhe foram impostos como certos. Essa criança escolhe dentro desses critérios que contrariam a natureza da existência que é sempre crescer e se expandir, causando uma insatisfação interna constante, e essa insatisfação se transforma facilmente em mágoa contra aquilo que eu mesmo escolho e que me impede de crescer, e assim se origina um circulo vicioso que mantém e alimenta o comportamento ressentido e o fracasso nos relacionamentos humanos.

Creio que isso pode ser mudado simplesmente se conectando com essa criança, esse lado essencial da gente, deixando que a criança se rebele e assuma sua condição natural, seja ela mesma, ou melhor, que seja uma bela referencia do que podemos ser nós mesmos. Basta ousar, basta correr o risco de não ser aceito por aqueles que precisam da gente condicionado e bem comportado dentro de seus critérios do que é certo ou errado e assim, estaremos caminhando para nos tornarmos pessoas livres de mágoa, pessoas sãs.

Netuno, mágoas além do pensamento

Netuno é a oitava mais fina desse trio de planetas que simbolizam nossa capacidade de sentir e se integrar à realidade. Está vinculado ao aspecto transpessoal da realidade e dos sentimentos.

Muitos autores afirmam que Netuno representa a compaixão, que corresponde a um estado de amor universal, de identificação com a espécie, com a condição humana como um todo. Bem, pode ser, mas é muito comum que essa palavra seja confundida com piedade, pena do sofrimento dos outros, empatia com quem está inferiorizado por alguma circunstância existencial, e nesse caso, a palavra compaixão perde seu sentido maior e se transforma em exercício de poder, em presunção e arrogância daqueles que se acham melhores que os outros. Mais uma vez a importância pessoal se faz presente.

O planeta Netuno simboliza a identificação, em níveis mais elevados ou transpessoais, além dos limites da razão, além da observação lógica, em sintonia com o sentimento e o instinto em sua expressão mais refinada e delicada. Exatamente por isso o reconhecimento dos sentimentos despertados no plano de Netuno e a redução desses sentimentos a um discurso lógico e formal se torna bastante complexa. Vivemos a experiência no plano de Netuno, nem sempre compreendendo sua origem ou como ela se processa, e por isso tantas vezes a ela é atribuída uma origem divina.

A identificação com o sofrimento da humanidade como um todo, origem e princípio do surgimento de tantos mártires e profetas durante a história do mundo, pode representar o aparecimento da mágoa em seu nível mais sofisticado e não administrável. Mágoa pela traição divina, pelo abandono de Deus, pela expulsão do paraíso e por conclusões semelhantes às quais nossa mente pode nos conduzir na tentativa de reduzir esse sentimento de identificação tão amplo a mínimos denominadores comuns.

Netuno pode representar o canal através do qual nosso ser se conecta com o inconsciente coletivo. Pode significar também nosso potencial de elevar nosso espírito a níveis muito além da razão e do discurso formal, colocando-nos em contato com linhas de força que percorrem o universo, meridianos de energia divina, que constituem uma realidade invisível, algo que só pode ser percebido pelo sentimento.

Nossa conexão ferrenha com a realidade material, com as necessidades do corpo e da mente, muitas delas criadas e artificiais, faz com que tenhamos a tendência de traduzir as energias representadas por Netuno para lugares comuns, empobrecendo seus significados, reprimindo suas possibilidades maiores e transformando essas possibilidades em distorções mentais, máculas, mágoa…

É um tipo de mágoa incontrolável, imensa, inacessível, por mais que tentemos transforma-la em sentimentos comuns. A sensibilidade netuniana contida e não vivenciada se transforma em angústia, em um poderoso sentimento de solidão infinita, cósmica, além da solidão social, além na necessidade de companhia humana, além do desejo.

O poeta Augusto dos Anjos, com seu estilo peculiar de registrar sentimentos e traduzir conteúdos da psique coletiva, escreveu a respeito da mágoa o pequeno poema que segue:

ETERNA MÁGOA

O homem por sobre quem caiu a praga

Da tristeza do Mundo, o homem que é triste

Para todos os séculos existe

E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga

Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.

Quer resistir, e quanto mais resiste

Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe

É que essa mágoa infinda assim, não cabe

Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;

E quando esse homem se transforma em verme

É essa mágoa que o acompanha ainda!

Augusto dos anjos

O que podemos fazer diante de sentimentos tão poderosos?

Como lidar com essas três dimensões apresentadas a respeito da mágoa e do ressentimento?

Podemos começar entendendo que, como o princípio gerador da mágoa está registrado na memória, representada pela Lua, se manifesta mentalmente através da expressão de Vênus e se torna um sentimento que parece estar além da própria pessoa, além do corpo físico e do gesto, através da manifestação em nós de Netuno, a solução para todos os representantes da mágoa e do ressentimento é praticamente a mesma, por serem todos esses símbolos níveis diferentes de uma mesma vibração, oitavas distintas de uma mesma nota.

Precisamos resgatar a criança que nos habita e que está ferida, machucada pelas exigências tantas vezes absurdas que a vida lhe impôs, com todos os sentidos sensibilizados como órgãos inflamados, e portanto, vulnerável à mágoa, presa à recordações dolorosas das quais não consegue se desvincular, tendo que incorporar comportamentos ressentidos para se resguardar de sua dor tão profunda.

Precisamos libertar essa criança, deixar ela escolher, deixar ela optar por ser quem ela quer e pode ser, deixar ela se rebelar e dizer não a tantas imposições morais e comportamentais que não lhe dizem respeito, permitir que sua afetividade seja expressa sem medo de ser ridicularizada ou rejeitada. É necessário apresentarmos a essa parte de nosso ser, a mais pura, a mais inocente, a mais limpa, a possibilidade de fazer novas escolhas, o fato de que ela não tem que ser mais ou menos importante que nada ou ninguém para ser aceita e amada, ela apenas precisa ser ela mesma para que nós possamos ser nós mesmos e nos libertemos da mágoa.

Precisamos também mostrar a essa criança interna que tudo é infinito, que tudo é uma única serpente cósmica de energia encadeada e cada parte dessa energia está intimamente ligada a todas as outras partes, cada manifestação da energia divina, cada ser que surge e se manifesta nesse plano, está conectado a todas as outras partes, a todos os outros seres, e que, exatamente por isso, ninguém está realmente só, ninguém está separado da totalidade do universo, e cada parte tem seu papel, tem sua tarefa, tem sua função estabelecida harmoniosamente e integrada à totalidade do infinito.

Por isso não estamos sós, por isso não somos nem mais nem menos que nada, por isso estamos equipados e prontos para sermos felizes, sem mágoa e sem ressentimento e por isso, não há nada de fato a perdoar. O perdão não é a solução para a mágoa. A solução é o amor e a compreensão e principalmente, a consciência de que não somos mais importantes que nada. Cada ser nesse planeta é a diferença em si mesmo e, portanto, não tem que sofrer por se sentir inferiorizado ou traído pela vida.

Estamos apenas aprendendo, e se tivermos a humildade e a paciência de agirmos a partir dessa premissa, de que estamos aqui para aprender, todos nós, todos os viventes, a vida será mais fácil, todas as mágoas perderão o sentido, todos os ressentimentos se tornarão tolos reflexos da vaidade e então, poderemos amar sem medo, poderemos nos entregar sem medo, exatamente como uma criança faz, exatamente como a criança que está dentro de nós pode fazer.

Bem, fazendo todas essas reflexões, permitindo que o pensamento fluísse, me dispondo a buscar dentro de mim as respostas ao sentimento que me invadiu nessa manhã, aconteceu algo delicioso: a tristeza foi embora, como surgiu se foi, se diluiu como uma nuvem no sopro do vento.

Já posso prosseguir, mais leve e com o sentimento de que as mágoas não precisam ser alimentadas, com a constatação de que, como diz a música de Milton Nascimento :

“há um menino, há um moleque, que mora dentro do meu coração, cada vez que o adulto fraqueja, ele vem pra me dar a mão…”

Valdenir Benedetti

Dezembro/2001