Astrologia e Psicologia Analítica

atualizado em 12/01/11 | Comentários desativados

por Tereza Kawall

A aproximação entre a Psicologia Analítica de Carl G. Jung e a Astrologia teve início em 1936, a partir da publicação do livro “ A Astrologia da Personalidade”, de autoria de Dane Rudhyar, músico, astrólogo e poeta francês, em Nova York.

Diz ele:

“Só me familiarizei completamente com as idéias de Jung no verão de 1933, enquanto estava no rancho do Novo México, onde li todas as suas obras até então traduzidas. Imediatamente me ocorreu que poderia desenvolver uma serie de conexões entre os conceitos de Jung e um tipo reformulado de Astrologia.” (1)

Rudhyar, dono de uma cultura e sensibilidade extraordinárias, foi o precursor da chamada Astrologia Humanista, que em essência significa ser mais centrada na pessoa, pois transfere a ênfase do mundo exterior (eventos) para o mundo interior da experiência e do crescimento pessoal. Seu foco está mais na relação que o indivíduo estabelece com o que lhe acontece, e com o significado da vida. A mandala zodiacal é um complexo símbolo cósmico de totalidade e, como tal, representando a potencialidade da estrutura da personalidade humana.

O presente artigo pretende analisar este rico entrelaçamento teórico a partir de dois constructos teóricos da psicologia junguiana e da Astrologia, que vêm a ser respectivamente:

1- A analogia entre a teoria dos quatro tipos psicológicos e as quatro funções da consciência, que são: intuição, sensação, pensamento, sentimento; e os quatros elementos, que são: fogo, terra, ar e água.

2- O conceito de individuação é o cerne da teoria de Jung e o objetivo de sua prática psicoterapêutica. Esse processo é um impulso natural do desenvolvimento do homem, e representa a possibilidade de integração de forças opostas da natureza, através do qual acontece uma gradual conscientização do homem em direção ao “ Si-mesmo”, uma árdua tarefa que perdura até o final da vida.

Os ciclos astrológicos mostram a estrutura da personalidade (presente na carta astrológica) em movimento, já a partir do nascimento, e irão revelar as inúmeras etapas de crescimento e transformação a serem percorridas durante a vida.

Os quatro tipos psicológicos e os quatro elementos

Na visão da Psicologia Analítica, a psique tem alguns modos básicos de funcionamento. Os conceitos junguianos de extroversão e introversão baseiam-se no movimento da libido em relação ao objeto. Na atitude extrovertida ela flui em direção ao objeto, e no caso da introversão, ela recua frente ao objeto. Nesse modo estrutural em que se percebe uma dualidade direcional psíquica, há também uma estrutura quaternária: as quatro funções da consciência, que mostram como a energia psíquica opera. São elas:

1. função sensação, que registra conscientemente fatos exteriores,

2. função intuição, que indica a apreensão de potencialidades futuras,

3. função pensamento, por meio da qual o nosso ego estabelece uma ordem lógica racional entre os objetos,

4. função sentimento, que seleciona hierarquias de valor para o mundo, de afeição ou rejeição pelo objeto.

A Astrologia de base junguiana pensou e relacionou os quatro tipos psicológicos e as quatro funções com a sua teoria dos quatro elementos.

Uma das premissas astrológicas é que tudo no Universo deriva de duas forças opostas e complementares, dois princípios universais, que podem ser chamados de masculino e feminino, ativo e passivo, ou yin e yang, como na milenar concepção chinesa de equilíbrio dos opostos.

Os doze signos do Zodíaco produzem seis pares de eixos opostos entre si, que são os chamados signos masculinos e femininos, dispostos de forma alternada no diagrama zodiacal.

Os primeiros associam-se à idéia de ação, extroversão, dinamismo, e sua energia é centrífuga por excelência. Os signos femininos, ao contrário associam-se à energia da receptividade, suavidade, imobilidade, e sua expressão básica é centrípeta ou introvertida.

Neste modelo energético e psíquico, há também outra subdivisão que, de forma semelhante à concepção junguiana, indica quatro formas psicológicas distintas, de apreensão da e adaptação à realidade, chamados os quatros elementos: fogo, ar, terra e água.

A associação feita em termos psicológicos, ou seja, características funcionais, ou mais típicas em cada indivíduo é que o fogo está relacionado ao tipo intuição; a terra ao tipo sensação, o ar ao tipo pensamento, a água ao tipo sentimento.

As características mais marcantes dos quatro elementos são:

Fogo: vitalidade, energia, alegria, auto-afirmação, aspirações, agilidade, orgulho, desejo de auto- reconhecimento, calor, entusiasmo, excessos.

Terra: controle, cautela, determinação, lentidão, retenção, mundo físico, resistência, persistência, cinco sentidos.

Ar: pensamento, comunicação, idéias, movimento, leveza, sociabilidade, imparcialidade, curiosidade, flexibilidade, mundo abstrato.

Água: sentimento, subjetividade, intimidade, fantasia, imaginação, reserva, auto-proteção, profundidade, vulnerabilidade, empatia.

Individuação e Ciclos de Desenvolvimento

A individuação, como vimos, é um processo de reflexão que possibilita um criativo diálogo entre o inconsciente e a consciência, podendo se manifestar como mais autonomia e a expressão da nossa individualidade única e singular. Esse caminho de emancipação e de integração da personalidade subentende uma maior liberdade em relação às forças do Inconsciente Coletivo e o fim da submissão inconsciente ou compulsiva aos valores sociais, aos complexos parentais, culturais ou religiosos da sociedade. É o emergir da essência em detrimento da aparência, a integração de aspectos contraditórios e obscuros da psique, ir além das limitações do nosso intelecto, as experiências transcendentes ou de cunho religioso junto à apreensão do sentido ou significado para a vida.

Cito Irene Gad:

“Tornar-se o ser desejado não representa o processo de tornar-se perfeito; ao contrário, significa tornar-se ciente dos próprios ângulos e arestas, do movimento próximo ao desconhecido e do nosso potencial”. (2)

De forma análoga, tanto as imagens alquímicas estudadas por Jung refletem a “opus” individual, quanto os símbolos astrológicos e seus ciclos de desenvolvimento são a mesma representação do processo de individuação, nas diferentes etapas de crescimento em direção à maturidade psicológica. Na Astrologia e, mais especificamente no mapa natal, essa individualidade ou a “impressão celestial” , única e intransferível, existe em estado latente em todo ser que nasce.

O mapa astrológico, como uma estrutura de espaço e tempo, pode indicar, através das técnicas preditivas (trânsitos e progressões planetárias), como e quando o seu potencial estará mais em evidência, indicando a realização das várias fases desta “ intenção original”.

Dito de outra maneira, os ciclos astrológicos podem mostrar de forma individualizada a manifestação ou constelação de certos arquétipos que num dado momento estão dialogando entre si, e esta configuração tem um significado a ser apreendido.

Portanto, neste contexto, estamos falando do tempo qualitativo, e dos eventos sincronísticos, entendendo que a sincronicidade é uma coincidência significativa de dois ou vários eventos, sem relação causal, mas com o mesmo conteúdo significativo.

A necessidade de conhecer e decifrar o mundo nos acompanha desde sempre e portanto ela é arquetípica ou comum a toda a humanidade.

Cito Gad novamente:

“O símbolo é, a princípio, algo comum que aponta, para além da sua realidade concreta, para uma base cujo significado mal podemos apreender de início. Freqüentemente os símbolos são encontrados em situações existenciais que eles podem ajudar a esclarecer; o significado e a importância da situação é assim revelado”. (3)

Finalizo com citação de Maroni:

Todo esse percurso psicológico sugere-me um refletir sobre si mesmo, um curvar-se, uma dobra. É dessa dobra que emerge o homem espiritual para Jung: um homem capaz de apreender em grande parte o seu padrão (energético) imagético, poético, arquetípico… Este estado lhe garante liberdade, flexibilidade, variabilidade, imprevisibilidade e, em especial, espiritualidade”. (4)

Notas:

1- RUDHYAR, Dane. Da Astrologia Humanista à Astrologia Transpessoal, Rio de Janeiro, Antares, 1985. Pág 12.

2 – GAD, Irene. Tarot e Individuação: correspondências com a cabala e alquimia, São Paulo, Mandarim, 1996. Pág 135.

3- GAD, Irene. Pág 136.

4- MARONI, Amnéris. Figuras da Imaginação – Buscando compreender a psique.

São Paulo, Summus, 2001. Pág 141.

Tereza Kawall é paulista, iniciou seus estudos de Astrologia no Rio de Janeiro com Antonio Carlos Bola Harres, em 1977. Colaboradora das revistas Bons Fluídos e Planeta, é co-autora do Livro: ” Astrologia, doze portais mágicos”, lançado em 2001. É psicóloga clínica com orientação junguiana, com pós graduação em Psicossomática.