Quando a alma quer a perfeição

19 de setembro de 2017 Artigos, Lua Nova, Lua Nova / Lunação no comments

No filme Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010) Nina (Natalie Portman) é uma gentil e delicada bailarina, muito comprometida com sua arte e tecnicamente perfeita. Ela participa de uma companhia de balé de Nova York que ensaia para apresentar O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, e para adquirir o papel principal se vê sob extrema pressão. Acontece que Nina se encaixa perfeitamente na delicadeza do Cisne Branco, mas não nas qualidades de malícia e sensualidade do Cisne Negro, que são mais características de sua rival Lily (Mila Kunis). A pressão que Nina se coloca e também por seu instrutor para ser perfeita para o papel faz com ela perca noção da realidade, entre em um surto psicótico e comece a apresentar delírios e sinais de violência consigo e com os outros. Toda a pureza e delicadeza de antes dão espaço a uma perversa, perturbada, mas ainda assim perfeita, bailarina.

 

Nina, no começo do filme é a personificação do signo de Virgem: pura, inocente, buscando a técnica perfeita. Mas que lhe falta alma, sentimento, emoção, o que ela irá resgatar da forma mais difícil. Na verdade, todas as característica do Cisne Negro sempre existiram dentro de Nina, mas para isso é preciso haver uma mutação e transformação de suas qualidades de Cisne Branco. Em outras palavras, por trás da fachada perfeita e pura que Nina se colocava antes existe seu oposto, seu lado mais destrutivo, imperfeito e impuro, mas que precisou ser resgatado para que ela não perdesse o principal papel de sua vida. Para os leitores mais conhecedores de astrologia podem associar essa energia muito com a de Escorpião, mas não é à toa que o símbolo de Virgem e Escorpião são muito parecidos, assim como os mitos associados aos signos  – como o de Perséfone, a delicada filha de Deméter que raptada por Hades acaba por se tornar sua esposa no submundo – estão muito presentes na narrativa do filme e, de certa forma, nesta Lunação.

 

Ao observar o Mapa do momento de Lua Nova em Virgem, pode-se resgatar então todas as qualidades do signo descritas na figura de Nina, por exemplo. A dedicação, a técnica, o perfeccionismo, o aprimoramento daquilo que se presta a fazer. Mas que sombra isso oculta, o que vem atrelado a essa energia? Aí podemos ver o dispositor Mercúrio, domiciliado em Virgem, em conjunção separativa a Marte, oposição exata a Netuno e trígono a Plutão. Marte com Mercúrio já traz um clima de tensão no ar e o trígono com Plutão reforça a necessidade de ser o melhor possível naquilo que faz, de se esforçar ao máximo e alcançar os resultados que imagina. Mas até onde esse imaginário é real e saudável? Até que ponto se está cego ao que faz na realidade, e não importa o que faça nunca estará bom o suficiente, sempre precisará lutar por mais serviço, mais perfeição, mais detalhes para se atingir um patamar divino inalcançável. No filme, Nina viveu isso em seu treinamento para se tornar o Cisne Negro, criou imagens e situações em sua mente que a levaram a ser cada vez mais perfeita para o papel mas acabaram por afundá-la no mar de seu inconsciente, encontrando ali o conteúdo mais renegado que nada tinha a ver com com a imagem da Nina perfeita de antes.

E então passamos para o momento da Lua Cheia, que acontece no signo de Áries e configura um T-Square entre Mercúrio (que passou para Libra) e Plutão (em Capricórnio), ponto focal do aspecto. O dispositor Marte também está em contato com Plutão (trígono), além de Saturno (quadratura) e Netuno (oposição) e uma conjunção exata a Vênus em Virgem. O aspecto de T-Square com ponto focal em Plutão parece o momento do nascimento do Cisne Negro na narrativa, o momento que Nina assume tal personagem e perde totalmente o controle de si e da realidade. A própria Lua em Áries e Marte em tensão com Saturno e Netuno traz uma volatilidade para o momento, uma energia de alguma forma pressionada, contida, incompreendida, uma grande névoa que faz tanta pressão que uma hora pode romper para a consciência e levar todo seu conteúdo.

 

Mas como isso pode se aplicar na prática? Quem sabe não existe aí uma grande sombra pessoal e social prestes a eclodir neste ciclo Lunar? Algo que se tenta reprimir por ser “feio” e “imperfeito”, mas sempre esteve presente de alguma maneira, ou ainda adormecido. O lado inocente e puro de Virgem é importante para se analisar e servir da melhor maneira, mas sem entrar em contato com o que está por detrás dessa fachada, sempre estará insatisfeito. E aí que entra o signo entre Virgem e Escorpião, Libra, a balança, o signo em que estará o Sol e Mercúrio no momento da Lua Cheia. A própria Vênus em conjunção exata ao dispositor da Lua, Marte, mostra como trabalhar as relações pode ser um caminho importante para se entender esse outro lado da psique individual. Mesmo socialmente temos um cenário de pré-guerra, terrorismo, intolerâncias sociais muito condizentes com a oposição Júpiter-Urano, ativa durante praticamente todo este ciclo Lunar. E como observado na Lunação passada estamos sob efeitos de um forte Eclipse Solar que aconteceu no final de Leão e já teve seus impactos físicos e sociais no mundo no período próximo à última Lua Cheia. Sua energia segue numa crescente e atingirá o ponto alto na Lunação de Escorpião, em Novembro. Parece que agora o terreno está sendo preparado, que é o momento propício para se analisar e avaliar a situação que ocorrer para evitar maiores danos e perdas lá na frente e buscar ter muita diplomacia, saber trabalhar o equilíbrio das relações buscando também um equilíbrio da psique.

Portanto, que área necessita agora um pouco mais de atenção e cuidado? Onde se pode aperfeiçoar? O setor que contém Virgem no Mapa traz todo essa bagagem, em que se pode viver sob a plástica do perfeito e da técnica, mas que por trás esconde um verdadeiro drama, um cenário em que poderá ser encenado o Baile dos Cisnes e ali deve saber viver sob a identidade do Cisne Branco, mas também identificar onde e quando surge o Cisne Negro. Começar a olhar para essa sombra é adquirir mais consciência de quem é e das novas possibilidades que ela pode trazer, podendo até servir para aperfeiçoar, mais verdadeiramente, o que for preciso. E tudo bem errar e tentar novamente. O que não dá certo é viver sob a ilusão da perfeição e ser algo que demanda muita energia. Viva mais o que funciona, e mesmo que haja pequenas falhas, encare como espaço e oportunidade para aprender e crescer.

 

Sobre o Autor

Astrólogo formado pela Humaniversidade e Gaia - Escola de Astrologia. Atualmente colabora com horóscopo e matérias para o portal da revista Glamour.

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