Parábola

26 de dezembro de 2011 Notícias Comentários desativados em Parábola

Um dia ganhei um sonho, presente das estrelas de meu céu particular. Era um sonho divertido, original, criativo, mas fui me acostumando a ele pensando que o entendia, quando na realidade estava apenas incomodado com sua presença. Sonhos são seres sensíveis, se retraem e somem quando não damos a devida atenção. Pouco a pouco minha vida ficou novamente opaca, sem brilho, e nos raros momentos de lucidez não entendia o que havia acontecido com ela. Alguma coisa estava faltando, alguma conta do meu colar de pérolas e brilhantes tinha desaparecido. Achava que a vida estava normal e não percebia que ela não era mais plena.

Deixei de sonhar. Preso ao fascínio do mundo caminhava mecanicamente sobre meus passos acreditando que estava tudo como deveria estar. Que a falta que sentia era normal, coisa que todos sentem e não dão o braço a torcer achando que melhor que isso não pode ser. Até que um dia ouvi uma história:
“Havia um lugar onde existiam dois países; o país da dor, da amargura, e o país da benção, da alegria. O primeiro era quase desértico e o segundo era verde e lindo. Entre os dois países corria um rio caudaloso, perigoso. Muitas pessoas do país da dor ficavam curiosas com o pouco que enxergavam do outro país e sonhavam com o que poderia ter do outro lado. Vários tentaram atravessar o rio, a maioria morria na tentativa e os que conseguiam atravessar não voltavam para dizer como era o outro lado.

“Um dia um homem bondoso, que morava no país da dor, resolveu ajudar na passagem de um lado ao outro ou morrer tentando. Era um homem muito forte e dotado de uma tremenda força de vontade. Amarrou um cabo muito comprido, resistente e flexível, numa árvore à beira do rio, amarrou-se à outra ponta e mergulhou na água. Quando estava muito próximo da outra margem foi visto por caçadores que o flecharam por confundi-lo com um animal estranho. Reunindo suas forças restantes alcançou a outra margem, conseguiu amarrar o cabo numa árvore grandiosa do país das bênçãos e morreu.

“Os que estavam assistindo a epopéia ficaram contristados. Aquele homem era um santo que havia tentado salvá-los do país miserável em que viviam. Choraram, cultuaram seu nome e começaram a recordar tudo que ele havia feito e falado. Inventaram histórias a respeito dele, fizeram biografias, levantaram estátuas e mais do que isso fizeram altares para louvar seu nome. Acabaram erguendo templos e alguns se sentindo mais capazes tomaram conta desses templos e ficaram como intermediários entre aquele santo homem e os demais seres humanos.

“O cabo continuou onde estava e as pessoas se esqueceram dele. Trepadeiras cobriram a ponta do cabo que foi ficando escondido como se nunca tivesse existido. E a obra máxima daquele homem, a única coisa que realmente importava, está lá perdida, abandonada. De vez em quando alguém resolve investigar e descobre o cabo. Uns mais preparados conseguem até usar o cabo e passar para o outro país. Como existe caminho de volta eles voltam e tentam avisar seus irmãos que sorriem e pensam: endoidou.
“E o contador da história concluiu: Deturparam tudo que fiz. O homem não era importante, o importante era a ponte!

A história calou fundo em mim. Lembrei do meu sonho e chorei amargamente o sonho perdido. Depois fiquei alegre, o sonho não estava perdido, estava dentro de mim. Está dentro de todos nós, pois cada um de nós tem um cabo; nós somos o cabo. Nós somos o caminho, a verdade e a vida e só através de nós podemos chegar ao Pai!

Sobre o Autor

Rodrigo Araês é engenheiro de formação e mestre em engenharia biomédica. Atualmente aposentado, depois de trabalhar por décadas no ensino de importantes universidades paulistanas, destacando-se na discussão e inclusão da transdisciplinaridade nos circuitos universitários de ensino e pesquisa. Deu seus primeiros passos na astrologia em 1968, tornando seu trabalho mais efetivo a partir de 1976 quando teve contato com Raul Varella. Em 1974 passou a estudar a obra de Alice Bailey, sendo hoje uma das principais referencias na Astrologia Esotérica do país. É um dos autores do livro Astrologia – Doze Portais Mágicos. Foi presidente da CNA no período 2011-2012.