O Eixo Relacional das Casas 1 & 7: O amor e as casas e o amor em casa

28 de setembro de 2015 Artigos no comments

 

 “Quem ama quer casa

Quem tem casa quer criança

 Quem tem criança quer jardim

Quem tem jardim quer flor

E como já dizia Galileeêu

Isto é que é amor”

Jorge Ben Jor

 

O ingresso do Sol em Libra chega com especial potência este ano, na medida em que se dá não apenas em uma temporada entre-eclipses, com o Sol conjunto o Nodo Norte em Libra, mas também pela conjunção que fazem com a Lua Negra e ainda o asteroide da parceria, Juno. Mercúrio por sua vez ainda retrograda neste signo e Vênus já está renascida como estrela matutina, em movimento direto repassando pelos graus da zona de sombra de sua retrogradação. Um período marcante para as relações, revistas e realinhadas para os tempos por vir. O convite, que muito me honra, de escrever um artigo exclusivo para a CNA abordando a temática libriana neste Equinócio de Primavera (para nós ao sul) me fez retomar algumas considerações¹ a respeito de um dos eixos fundamentais do mapa astrológico, o eixo de Ascendente-Descendente, das casas um e sete, correlatas aos signos de Áries e Libra. Por esta via então das casas, que ancoram o céu em nossa realidade, é que abordarei a temática relacional.

Em uma carta natal, as casas são os âmbitos da experiência do sujeito, costumamos dizer. No convívio, a vida amorosa se efetiva, não só como sentimento mas como prática, em diferentes tipos de vínculos de amor.

Abordarei aqui o que considero propriamente o eixo relacional, das casas I e VII, costumeiramente descritas como a casa do EU e a casa do OUTRO.

A I casa inicia-se com o Ascendente, porta de entrada do mapa astrológico, indicadora do instante do nascimento, da entrado do espírito no corpo, da aparência deste corpo, da noção de individualidade que ter um corpo nos dá. Enquanto que a VII casa, esta casa ‘em frente’, nos diz da noção de um outro com o qual nos deparamos e com quem entramos em relação – sendo a VII casa a que nos fala das parcerias, do parceiro, do cônjuge e também dos inimigos declarados. São registros estes que quase nem mereceriam menção, visto serem interpretações básicas em astrologia. Contudo, iniciemos desta base com o intuito de aprofundarmos nossa compreensão do que se dá no eixo aqui em questão, concordando com Sasportas quando diz que “…o significado primordial de uma casa tem de ser compreendido – o significado mais profundo do qual saltam todas as inumeráveis associações e possibilidades ligadas a esta casa” (Sasportas, 1999, p. 31).

Com Lacan (1985) podemos examinar a dinâmica eu-outro de forma não dicotômica, ao observarmos a banda de Moebius, que pode ser feita ao se tomar uma faixa de papel e conectar suas extremidades, fazendo antes porém uma torção. Desta maneira, se percorremos um dos lados, uma das duas superfícies do papel, em um momento nos encontramos fora, em outro dentro do círculo formado pela junção das extremidades.

Astrologia & relacionamentos Vanessa Guazzelli Paim 01Isto nos chama a refletir o quanto o eu está no outro e o outro está no eu. A 1ª Casa é a casa do eu. Mas este eu se forma a partir do outro. Vejamos como:

A I casa é esta noção de eu, de individualidade que tenho a partir de um corpo, mas que reconheço através do espelho ofertado pelo outro. De que maneira? Primeiramente, a percepção do corpo da mãe como um outro corpo, ao se diferenciar a simbiose inicial, transmite ao bebê a noção de unidade de seu próprio corpo. Em O Estágio do Espelho, Lacan descreve ainda o momento em que o bebê, ao ver sua imagem refletida em um espelho, recebe do outro (mãe ou figura parental) o nome que identifica este corpo como seu, sua individualidade – “olha ali o Joãozinho!”. A imagem e o nome então integram as várias sensações que compõe a experiência deste um corpo.

Seja pela imagem refletida, seja pelo nome conferido, é através do outro que se estabelece a noção de eu. E a partir desta concepção, desta noção de outro, é que se constitui o sujeito. Ou como dito na Teoria de IV e X de Peres (Guazzelli Paim, 2005), a I casa é a noção de eu e é também o que recebemos dos outros nos primeiros contatos. Sasportas partilha desta compreensão, afirmando que “As energias da 1ª Casa poderiam descrever mutuamente o efeito que “nossa entrada em cena provoca” nos outros” (Sasportas, 1999, p. 38). A cerca do Ascendente, este autor salienta que “A forma pela qual percebemos o mundo (nossas lentes) vai influenciar tanto a maneira como nos relacionamos com ele quanto a maneira como ele nos é devolvido, refletido” (ibidem, p. 35). Eugenio Carutti descreve a questão do ascendente como algo que a pessoa “irá de a poco descubriendo que eso que le ocurre – através de hechos repetidos y de personas que lo rodean – es su naturaleza, es lo desconocido de si mismo que se manifesta”¹ (Carutti, 2012, p. 64). Ou seja, o Ascendente nos conta não apenas de nossa noção de individualidade, mas de uma resposta do meio a nós.

Assim como podemos ver algo do outro na I casa, na VII há algo do eu. Uma pergunta que surge às vezes por parte de estudantes de astrologia é “mas a VII é como é o outro ou como eu me relaciono?” – ao que costumamos responder “as duas coisas”. A minha VII casa é minha, independentemente do mapa natal de quem quer que eu me relacione. Neste campo, ativa-se a noção de um outro que está em mim. Assim, a forma como este outro se apresenta depende também da maneira como eu me posiciono.

A Teoria de IV e X explica que:

“A partir da estrutura da minha IV casa, desenvolvo seu contraponto, que é minha X casa. Apresento então esta qualidade ao mundo, recebendo como retorno a I casa. Contudo, na medida em que há intimidade, o que transparece é de fato minha estrutura – a IV, que é como experiencio meu íntimo. O retorno, então, passa a ser a VII casa, que é propriamente a casa dos relacionamentos” (Paim, 2005, p. 2).

Quando damos a X, recebemos a I. Quando damos a IV, recebemos a VII.

E aqui tocamos no cerne do que concerne este escrito. O que se dá no eixo relacional de I e VII casas? Encontro neste eixo, em suas duas pontas, tal como na banda de Moebius, tanto o eu como o outro. Que se interpenetram e se definem, num paradoxo em que se constituem mutuamente ao se diferenciarem. Quanto mais consigo eu conceber a existência do outro, mais consistência tenho como sujeito; quanto mais integrada minha noção de eu, mais capaz sou de considerar e dar espaço ao outro.

Foto: Gilbert Garcin

Este é o eixo relacional, AC e DC, horizontal – como se abríssemos os braços e encontrássemos o outro. Este eixo horizontal, todavia, está sempre em articulação com o eixo vertical, o eixo real de IV e X casas, Fundo-do-Céu (IC) e Meio-do-Céu (MC). Este sim me fala de minha realidade vertical: minha origem e minha missão, minha raiz e meu mais alto desejo.

Quando vou ao mundo, afirmo meu desejo de X casa e recebo o retorno dos primeiros contatos, I casa. Dou a décima, recebo a primeira. Posiciono-me como minha X casa, recebo dos outros meu próprio Ascendente. Na medida em que me sinto em casa, porém, o que emerge é minha IV casa. Permito que o outro entre de alguma forma em minha intimidade ou convívio, e entro propriamente em relação. Então, dou a quarta e recebo a sétima. O outro, em relação comigo, se torna VII casa.

Observemos, no entanto, que a X casa não satisfaz se ficar apenas como imagem, precisa de fato ser internalizada. Da mesma maneira que, se quando estamos em casa, nos deparamos apenas com aquele mesmo conteúdo ou padrão já conhecido das origens, se na IV seguimos apenas o automatismo já ali encontrado, se dá apenas repetição de padrão afetivo, familiar, emocional. Cabe, portanto, a cada sujeito o exercício da liberdade – o que fazemos com isto que nos é dado pelos contextos da vida? Cabe a cada um operar a inversão que coloca a bagagem a servido do mundo como legado; e cultiva o que é de seu Desejo em sua realidade íntima. “A chave está em se fazer a inversão, que expressa as capacidades e talentos do ser no mundo, trazendo pra dentro de si aquilo que é o seu desejo, sua busca – o suplemento que equilibra sua estrutura interior” (Paim, 2005, p. 3).

Quando cultivo em meu íntimo isto que é meu Desejo – trazendo a X para a IV – possibilito também mais ‘corpo’ a este outro – a VII recebendo o conteúdo da I – dando mais consistência ou tempero à vida de relação. Por outro lado, o efeito de se operar a inversão de IV para X no âmbito público, tem como consequência a inversão no eixo relacional de VII para I, de modo que os conteúdos da VII tendem a temperar os contatos iniciais de I casa. Pois se, desde nosso posicionamento, colocamos a IV na X, trazemos a VII para a primeira. E se colocarmos a X na IV, trazemos o tempero da I à nossa VII casa. Nosso posicionamento, público ou privado, é que suscita determinada resposta em nossa vida relacional.

Foto: Gilbert Garcin

Lacan Demonstrou com a banda de Moebius, que o eu e o outro não são tão separados como por vezes se costuma pensar. O eu se constitui através do outro. Ou como indica Sartre, que tem FC em Áries e MC em Libra, é através da relação com o outro que conhecemos e realizamos nosso devir, nosso vir a ser. O testemunho da continuidade entre o eu e o outro. Ao mesmo tempo, a relação do eu com o outro não se dá sem corte. O corte que separa o bebê da mãe, rompendo a simbiose, tira o bebê de lugar de mero objeto de desejo da mãe para ser ele próprio sujeito desejante. Assim se inscreve a lei paterna, Saturno, que junto com a Lua, na dinâmica ‘aconchega-mas-lança-ao-mundo’, constituem o sujeito.

Lua e Saturno são os regentes de Câncer e Capricórnio, correlatos às casas IV e X, iniciadas respectivamente pelo Fundo-do-Céu e Meio-do-Céu – eixo vertical fundamental do mapa astrológico. As casas IV e X nos contam do nosso posicionamento, nossa verticalidade. A maneira como nos posicionamos tem direto efeito na nossa vida de relação – tanto no âmbito público, como no privado. Na dinâmica entre I-X e IV-VII, se dá nossa estruturação psíquica, nossa constituição como sujeitos. Nestes âmbitos, estão as marcas afetivas que pautam nosso posicionamento e nossa maneira de nos relacionarmos – tanto no âmbito público, como no privado. Ao operarmos a inversão de IV e X, assumindo nossa bagagem como legado no mundo e apropriando-nos de fato do desejo, nos ativamos como sujeitos desejantes – Marte e Vênus, Áries-Libra.

Vejamos um exemplo. Um Ascendente em Virgem e Descendente em Peixes nos conta de uma tendência a ver o outro de forma idealizada e/ou nebulosa. Implicará em não idealizar tanto o outro, não pautar-se por um ‘espelho perfeito’ , mágico, mas que porém escapa, escorrega. Será preciso baixar a exigência máxima do Sagitário de IV que tende, na intimidade, a impor sua verdade, a ser totalitário, autoritário – ele é que sabe!  E, de fato, sua contribuição ao mundo é sim seu senso de direção – de alguma maneira, é seu senso de saber e direção que deverá lançar ao mundo. No entanto, na vida íntima, é preciso trazer a simplicidade do ar, a disposição a um outro olhar, a flexibilidade de Gêmeos, que é capaz de incluir outro ponto de vista. É isto que possibilita então que o outro se torne mais concreto. Invertendo a IV e a X casas, se opera a inversão de I e VII. Neste caso, que a VII em Peixes se inverta em Virgem quer dizer que é a qualidade mais concreta virginiana que equaliza as relações íntimas, de maneira que o potencial inerente a Peixes ali presente possa ganhar consistência e os ideais românticos melhor se traduzam em práticas diárias.

Vejamos agora outro exemplo, se tivéssemos as posições ao contrário. Enquanto que Peixes AC e Virgem DC, no padrão automático, tende a ser criticado nas relações íntimas. Frente às contradições, bagunças, racionalizações ou flexibilidade demasiada de Gêmeos na IV casa, o outro se põe a organizar, marcando onde estão as imperfeições. As relações de IV e VII regidas ambas por Mercúrio tem tendência a recorrer em muitas palavras, muito argumento e questionamento na intimidade. Isto é talento quando posto a serviço no mundo. Mas, pra que a vida de relação de uma VII casa em Virgem seja equalizada com a compreensão, a compaixão, a inclusão e a entrega de Peixes, é preciso que o sujeito de Gêmeos na IV cultive em seu íntimo as qualidades sagitarianas indicadas por sua X casa. Ou seja, menos papo e mais atitude; menos questionamento e titubeios mentais, mais ação e fé em si. A resposta do outro passa então a ser Peixes – mais silêncio, mais aceitação, mais compreensão e entrega na relação.

Astrologia & relacionamentos Vanessa Guazzelli Paim 04

O signo da VII casa nos conta sempre desta noção que temos de outro – a quem me endereço em meu íntimo. Independente do mapa de cada indivíduo com quem nos relacionamos em diferentes tipos de vínculos, temos nossa noção de outro e nos posicionaremos e tenderemos a reproduzir a forma de relação marcada em nós.

A inversão de IV e X casas, é uma ação vertical, atitude do próprio sujeito, que desde sua liberdade faz algo próprio com isto que recebeu da vida. Este posicionamento que demanda uma prontidão no agora, numa equalização do próprio eixo que se reflete então em uma equalização na vida relacional. Invertendo IV e X, invertemos I e VII – e o tempero dos opostos equaliza a vida de relação.

Uma observação ainda se faz crucial. Colocar a IV na X, em termos públicos e profissionais, significa assumir seu talento, sua autoridade, sua contribuição no mundo. Contudo, em termos afetivos, significa deixar claro de início o que se costuma ser realmente, qual o funcionamento de nossa IV casa, como de fato, na medida em que se convive, costumamos ser. Se prometermos o MC nos primeiros momentos de um encontro amoroso, prometemos aquilo que sim é o nosso desejo, mas que não está automatizado. E, se o outro então toma contato com como somos quando relaxamos e não encontra aquela promessa do MC, a tendência é se frustrar ou mesmo se sentir enganado ou traído. No entanto, quando de começo mostramos o que de fato está ali, por polaridade, atraímos o oposto, que é o MC e que é, portanto, nosso desejo. Uma vez que assumimos o que simplesmente somos (colocarmos a IV casa na X), é possível então o cultivo íntimo daquilo que desejamos (trazer a X para a IV). Não pela prisão de uma promessa que não é ainda real ou garantida, mas pela liberdade de cultivarmos o que realmente queremos.

Esta inversão de IV e X equaliza o eixo de I e VII casas, fertilizando a vida de relação. Dizer que a I tempera a VII é dizer que o cultivo íntimo do que é nosso desejo ativa em nós a percepção vivaz do encontro no agora – o amor em casa.

 

 

Astrologia & relacionamentos Vanessa Guazzelli Paim 05

 

Notas:

¹ Considerações estas que formam parte do livro vindouro que aborda a Teoria de IV e X Casas – aqui em versão original para abordar especificamente a temática solicitada.

² “…irá aos poucos descobrindo que isto que lhe ocorre – através de fatos repetidos e de pessoas que o rodeiam – é sua natureza, é o desconhecido de si mesmo que se manifesta”.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARUTTI, Eugenio. Ascendentes en Astrología. Buenos Aires, Kier, 2012.

LACAN, Jaques. Escritos. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 2 – O eu na teoria de Freud e na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. Seminário X, livro X – A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

PAIM, Vanessa Guazzelli. A Teoria de IV e X de Peres à Luz da Psicanálise. Rio de Janeiro: VII Simpósio do SINARJ, 2005.

SARTRE, Jean-Paul. Entre Quatro Paredes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

SASPORTAS, Howard. As Doze Casas. São Paulo: Pensamento, 1999.

Sobre o Autor

Astróloga, pesquisadora, conferencista e docente en Astrologia. Aprendeu a calcular mapas aos 14 anos, em 1989. Formou-se pela escola Meio-do-Céu (Porto Alegre/RS) em 2004. Há muitos anos estuda com Clovis Peres. É também psicóloga psicanalítica lacaniana, especialista en Transtornos do Desenvolvimento em Abordagem Interdisciplinar. Após alguns ricos anos de prática clínica e realização de pesquisas qualitativas empresariais, hoje se dedica exclusivamente à Astrologia. Realiza cursos e palestras em diferentes lugares do Brasil, América Latina e Península Ibérica. Co-Organizadora do CINASTRO 2015 - Além Fronteiras. Ex-Presidenta e Conselheira Consultiva da CNA e membro do Sinarj. É a Agent 55 da C*I*A - Cosmic Intelligence Agency, para a qual escreve ( www.cosmicinteligenceagency.com ). Escreve também para a Infinity Astrological Magazine, revista sérvia de astrologia. Seus artigos, publicados em português, inglês, espanhol e romeno, podem ser encontrados em seu blog Ventos da Rosa ( www.ventosdarosa.com ) ou na correspondente página no Facebook ( www.facebook.com/ventosdarosa ). Trabalha com a perspectiva das 3 cruzes fundamentais do Zodíaco (modalidades). É especialista em Teoria de IV e X Casas e em Lua Negra. Atende e dá aulas presencialmente e via Skype, em português, espanhol e inglês.

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