Lua Nova em Escorpião – Quando mergulhamos em nossa alma…

30 de outubro de 2016 Arquivo, Artigos, Ciclos Astrológicos, Comunicação CNA, Lua Nova / Lunação, Mecânica Celeste 2 comments

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Assim, finalmente, vi Satanás surgir diante de mim – magnífico, formado por inteiro.

Seus pés e pernas brilhantes foram os primeiros a surgir, saindo dos arbustos,

E ele ficou de pé, ereto, com sua pele negra, o nariz dilatado de paixão;

(Ele ficou à luz solar ardente e insuportável, e eu, à sombra dos arbustos);

Vinha dos seus olhos uma vigorosa e mordaz efluência, desdém por sonhos e sonhadores (ele tocou uma rocha dura e a despedaçou, produzindo o som de um trovão);

Vinha de sua carne escura uma forte influência magnética; seus grandes pés, bem formados estavam plantados com firmeza na areia – os dedos separados uns dos outros;

“Sai”, disse ele com escárnio, “tens medo de me conhecer?”

Eu não respondi; em vez disso, lancei0me sobre ele e o esmaguei.

E ele me esmagou mil vezes, e me fez em pedaços e me queimou, matando-me como se com mãos e chamas;

E fiquei feliz, pois meu corpo jazia ali morto; e me arrojei de novo contra ele com outro corpo;

E ele se virou para mim e me esmagou mil vezes e matou aquele corpo;

E fiquei feliz, atirando-me sobre ele novamente com outro corpo – e com outro, outro e mais outro;

E os corpos que eu tomava caíam diante dele, e eram como cinturões de fogo ao meu redor, mas eu os deixava de lado;

E as dores que eu suportava num corpo eram forças que eu incorporava ao corpo seguinte; e minha força aumentou até que, por fim, fiquei inteiro diante dele, com um corpo como o seu, e de igual poder – exultante de orgulho e júbilo.

E ele parou, dizendo: “Eu te amo.”

E eis que a sua forma mudou; inclinando-se para trás, ele me atraiu para si,

E me levou pelo ar, flutuando comigo acima das árvores mais altas e do oceano e, em torno da curvatura da terra, sob a lua –

Até ficarmos outra vez no Paraíso.

 

The Secret of Time and Satan. Edward Carpenter. Tradução extraída de “O simbolismo Junguiano na Astrologia”. HOWELL Alice O. 1987

 

Esta passagem retrata de uma forma poética os momentos de crise que vivenciamos, quando nos deparamos com o próprio Satanás, e, assim como descrito no conto, devemos ir de encontro a ele, de encontro à própria alma, à nossa sombra. Nós nos destruímos no processo, mas a vida continua e enquanto o corpo físico não morrer ele lutará pra se manter vivo, pois este é o desejo da alma. Assim, enquanto vivos renascemos, cada vez mais fortes, prontos para lidar com novas crises, para descer mais um degrau na escada da alma, indo cada vez mais fundo e ao encontro de nossa sombra. Ao fim desta jornada, sairemos inteiros, mais conscientes do que somos e o que queremos, com força para enfrentar a vida (e a morte) da forma como realmente deve ser.

A Lua Nova em Escorpião marca este ciclo em que a jornada da alma fica mais evidente, em que somos convidados a mergulhar em nossas emoções, a explorar nossas profundezas, a dissecar nossos desejos. Nisso podemos encontrar e eliminar o que está podre e preservar o que está bom para ficar ainda melhor. Mas sabemos o quanto é difícil e doloroso este processo.

Por que não apreciamos a crise? Será que, inclusive, a própria palavra “apreciar”, um verbo de conotação positiva, acompanhado de “crise”, um substantivo de conotação negativa, já gera um incômodo? Associamos crise a dificuldades, momentos que não são felizes e não trazem boas lembranças. Mas depois que passa e olhamos para trás e percebemos como ela foi responsável para chegarmos onde estamos, pela felicidade que vivemos no presente, conseguimos enxergar aquela crise sob uma outra perspectiva e ver um sentido para tudo. A perda de um emprego nunca é positiva, mas talvez sem isso você jamais teria coragem de investir em seus projetos. O término de um relacionamento nunca é fácil, mas pode-se chamar de amor uma relação abusiva? A morte e um pai é muito dolorosa, mas com isso você resgatou o laço com seu irmão, cujo sobrinho lhe enche de alegria. São apenas alguns exemplos de como podemos enxergar uma crise sob um outro ângulo, sorrir para ela e, porque não, então, para as futuras que virão?

 

Lunação de Escorpião – 30/10/2016, 15h38′ (horário de Brasília)

 

Toda essa questão está retratada nesta lunação, não somente por estar em Escorpião, mas também conjunto a Mercúrio e trígono a Netuno, que se encontra no signo de Peixes. É o momento de fazer análises profundas, entrar mais em contato com nossa alma e atribuir novos significados para o que vivemos, sendo passado, presente e futuro. O trígono é um aspecto fluente e Netuno idealiza e inspira neste momento. Resolva suas questões internas, permita-se à fusão consigo mesmo, entre em contato com suas emoções e seus instintos e deixe que eles o guiem para a felicidade, assim como, na passagem, o autor é conduzido ao paraíso por Satanás.

 

Perigo + Oportunidade = Crise

 

 

 

 

 

 

Quando escrito em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro oportunidade.

John Kennedy

 

Nosso instinto mais primitivo é fugir do perigo, pois implica em sobreviver. Mas o perigo aqui não é externo, e sim interno. A intensidade da crise é um reflexo da sua alma. Quanto mais questões mal resolvidas, empurradas para debaixo do tapete, mais elas eclodirão nestes momentos. E quanto mais postergar sua resolução, mais podre ela ficará até o momento em que eclodirá como um vulcão em erupção. Nosso corpo elimina tudo aquilo que não serve. Por que nosso inconsciente não faria o mesmo? Essa característica é bem escorpiana e plutoniana. Inclusive, sob o ponto de vista da saúde, todos os excrementos que eliminamos no corpo são atribuídos a Escorpião.

São nas situações tensas que você se vê obrigado a lidar com o que bloqueou e solucionar ou empurrar de volta e apertar a tecla “está tudo bem, eu sou feliz!”. Mas é realmente? De onde vem essa mania de ser feliz o tempo inteiro? Será que da vida que vemos as pessoas colocando em suas redes sociais, sempre bem acompanhadas ou fazendo viagens incríveis? Ou das novelas e filmes que mesmo com os maiores dramas sempre há uma resolução e um final satisfatório? Vivemos num mundo em que o correto, o saudável e a meta de vida é ser feliz. Mas é impossível viver este estado pleno de felicidade, pois assim como a vida carrega a morte, a felicidade também carrega seu oposto. O que podemos fazer é dar um outro significado (novamente aqui as influências de Netuno) para a infelicidade, para as crises e somente somos capazes disso ao encararmos a podridão que estamos inseridos. Apenas integrando questões da nossa alma, trazendo o inconsciente (Lua) para o consciente (Sol) é que podemos percebê-las, daí reconhecer e aceitar nossos instintos e então transformá-los, deixando de ser uma questão que nos prende e passando a ser uma oportunidade ou força da personalidade, que nos distingue da massa e nos faz indivíduos singulares que todos somos.

Transformação é uma palavra sempre muito associada à Escorpião, e se reflete mesmo na profundidade que este signo nos leva. Só transformamos o que não está bom, o que precisamos eliminar e desapegar. Assim, podemos concluir que a crise é a alma clamando por uma cura, pela transformação. De que maneira poderemos, nesta lunação, sentir mais essa transformação? Talvez a conjunção com Mercúrio, um planeta pessoal que rege os pensamentos, as ideias, a comunicação e a troca com o mundo exterior seja a resposta. O próprio Netuno em aspecto positivo a este Mercúrio indica que é o momento de confiar mais na intuição, unir mente e alma e dar vazão as emoções de forma criativa, ou altruísta, com um significado e propósito maior. Por exemplo, me ocorreu neste instante que escrever este texto pode ser uma forma de trabalhar essas energias, já que a escrita também está ligada a Mercúrio.

O primordial desta lunação é o fortalecimento pessoal, através da transformação da alma, da vazão pela criatividade, da análise e ressignificação das crises. A Lua Cheia no signo de Touro, no dia 14 de Novembro, reflete a característica da resistência. O interessante é que não há nenhum outro aspecto envolvido no momento, apenas Sol e Lua se conversam sob tensão. A Lua está exaltada em Touro, a segurança emocional está muito associada ao mundo físico, ao que possuímos, às sensações que vivenciamos. E não seria o mundo exterior um reflexo de como estamos internamente?

Lua Cheia de Escorpião – 14/11/2016, 11h52′ (horário de Brasília)

 

 

Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos

Carl Jung

 

A copa de nossa árvore está saudável? O tronco está forte, resistente às agressões externas? Isso só poderá ser possível se as raízes forem profundas, ao permitirmos trabalhar essa energia transformadora da lunação de Escorpião, e extrair de nossas profundezas os mais fortes dos nutrientes.

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Curioso notar que os dispositores desta lunação, Marte e Plutão, estão em Capricórnio, em conjunção. O que de fato precisamos mexer e destruir em nossas vidas? Que ação prática e concreta devemos tomar para livrar-se do peso que carregamos? Capricórnio, regido por Saturno, representa a própria realidade, os desafios, a sociedade. E não vivemos uma sociedade em crise? Aqueles que estão lutando não estão indo em direção à ela? Marte está quadrado a Urano, não se pode mais esperar sentado a mudança acontecer, é preciso tomar ação e ir à guerra. Plutão quadra Júpiter em Libra. Afinal, vivemos em uma situação de justiça e igualdade? Ou devemos acreditar que, assim como nas novelas que assistimos, a trama chegará a um desfecho feliz?  A sociedade está passando por crises, não aceitando se acomodar, lutando e se transformando. E nós, em nossa individualidade, fazemos o mesmo? Mais curioso ainda é que no momento da Lua Cheia em Touro, o dispositor, Vênus, também estará em Capricórnio e também não receberá aspectos e interferências. Devemos assumir o compromisso e a responsabilidade para com nossos desejos. Não devemos fugir da realidade, mas amá-la, aceitá-la, trabalhar para integrá-la.

Não podemos ter medo da transformação. Não podemos dar as costas para as crises, por mais que elas ferem nosso momento. Assim como fez o autor do conto inicial, devemos ir de encontro a nossos demônios, o quanto for necessário, renovando-se e fortalecendo-se no processo. Até porque, se não for assim, ela acabará vindo em nossa direção, o quanto for necessário também, como uma lição a qual postergamos o aprendizado.

 

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Sobre o Autor

Astrólogo formado pela Humaniversidade e Gaia - Escola de Astrologia. Atualmente colabora com horóscopo e matérias para o portal da revista Glamour.

2 comments

  1. Posted on out 31, 2016 at 10:00 PM

    Muito bom Júlio!

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  2. Luara
    Posted on nov 28, 2016 at 5:35 PM

    Texto lindo.

    reply

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