Lua Nova de Libra – Quando As Almas Se Encontram

30 de setembro de 2016 Arquivo, Artigos, Lua Nova / Lunação no comments

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– … Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…

– Duas?

– Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. (…) A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.

 

Este trecho retirado do conto “O Espelho” de Machado de Assis é também um pequeno retrato do que passaremos no próximo ciclo Lunar em Libra.

 

Libra, signo que marca em nossa jornada o encontro com o outro, regido por Vênus, Deusa do amor, prazer e harmonia, representado por uma balança, objeto que remete ao equilíbrio, marca o equinócio (primavera no hemisfério sul e outono no hemisfério norte), em que há proximidade de duração do dia e noite, e ainda ilustrado em um símbolo  que carrega vários significados, dentre eles um círculo (espírito) incompleto ou o Sol se pondo no horizonte, remetendo em nossos Mapas ao Descendente, casa natural de Libra, e também o mergulho ao inconsciente, à sombra.

 

Em “O Espelho” o narrador relata um fato de seu passado, em que acabara de ser nomeado alferes (um posto militar) da Guarda Nacional e passou assim a ser reconhecido e reconhecido pelos com quem convive, dado o orgulho dos familiares da posição adquirida por ele. Em um dado momento, por um mês, ele visita a tia em um sítio distante e isolado, na companhia do cunhado e alguns escravos e passa a ser conhecido como “senhor alferes”. De tanto que lhe chamam desta forma se acostuma e esta se torna sua identidade. Mas, devido a uma doença na família, a tia precisou se ausentar com o cunhado, deixando o jovem aos cuidados da casa e dos escravos. Certa noite os escravos acabaram fugindo e o jovem se vê sozinho naquele casarão, distante de tudo e de todos. A solidão bate forte e ele passa a viver o terror naquela casa apenas consigo mesmo. Havia na sala um grande espelho, que ele relata como sendo o objeto mais bonito na casa. Um dia, ao se olhar no espelho, não se reconhece e chega a beira da loucura.  Estava pronto para ir embora daquele lugar, até que veste a farda de alferes e se olha no espelho novamente antes de partir. Então, passa a reconhecer sua imagem, resgata sua identidade.

 

Este conto (aqui resumido) traz inúmeras discussões da nossa relação com os outros e como isso afeta a maneira como nos vemos, a pessoa que nos tornamos, e de que forma isso condiz com nossos desejos inconscientes, da alma interior. O outro pode nos atribuir inúmeras características, mas só nos identificamos com aquilo que reconhecemos, com que ressoa em nossa alma. Assim, nos vemos refletidos no outro e quando ele se ausenta, nosso reflexo vai embora, uma parte de nós vai embora, mas na verdade não é o outro a metade da laranja. Somos a laranja por completo, mas atribuímos uma de suas metades ao outro.

 

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O signo de Libra vem para apontar essas duas metades, coloca o espelho diante de nós a partir do momento em que nos relacionamos com alguém. Então descobrimos características nossas, algumas boas e outras repulsivas. O outro também vive a mesma condição. Assim, na ausência de um, o outro fica incapaz de manifestar o melhor (e também o pior) que há nele. A solidão, portanto, não é uma opção, resta então indivíduos distintos encontrarem o equilíbrio entre suas almas. Voltamos à representação da balança pelo signo de Libra, cujo elemento ar indica a racionalização da alma, promovida através da interação entre dois indivíduos, que, para não se verem sozinhos com suas almas, buscam compreensão e harmonia.

 

 

Este ciclo libriano que se inicia faz com que as relações tomem um grau maior de importância. Talvez maior do que estamos acostumados, uma vez que a Lua Nova vem acompanhada por Júpiter. É fato que não podemos seguir nossa jornada desacompanhados, apesar da solidão fazer parte de nossa história. Nascemos e morreremos sozinhos, singulares, ninguém escapa disso. Mas a alma precisa se expandir através do outro. Refletimos no outro tudo que é consciente e inconsciente, tudo que vemos e tudo que ainda temos que ver e aprender sobre nós mesmos. Só assim poderemos nos reconhecer como laranjas inteiras.

 

Lua Nova de Libra – 30/09/2016, 21h11′, Brasília- DF

 

Há também nesta Lua Nova um sextil de Saturno em Sagitário. Não somente devemos nos expandir através do outro neste momento como também fortalecer esses laços, estruturar o presente para construir positivamente um futuro. Vênus, regente de Libra e dispositor dessa lunação, encontra-se no signo de Escorpião, e recebe um trígono de Netuno. Sabemos que Vênus está exilada em Escorpião e a manifestação do amor e do afeto vem com muito controle e medo, características contrárias ao que é o amor. Mas Vênus em Escorpião nos ensina o sentimento de perda, leva o amor ao nível mais profundo, nos coloca em contato com o lado inconsciente da mente e sombrio de nossas almas. E assim nos transformamos, passamos a enxergar nossa laranja mais completa uma vez que se entende que o outro não é responsável pela nossa metade. Felizmente, este trígono a Netuno eleva a relação a uma qualidade altruísta e compassiva. Uma relação transformadora não precisa ser dolorida, é também aquela relação que nos inspira, que nos coloca em contato com o lado mais espiritual e divino.

 

A Lua Nova marca o início dessa transformação positiva, dessa expansão e estruturação através das relações. Seu ápice é marcado pela Lua Cheia em Áries, acompanhada por uma conjunção a Urano e recebendo oposição de Mercúrio.

 

Note aqui o sentimento muito forte de individualização. O quanto nos anulamos pelo outro? O quanto a balança da relação pesa mais para um lado? Marte, o dispositor desta Lua, encontra-se exaltado em Capricórnio e conjunto a Plutão. Faz ainda uma quadratura a Mercúrio e Júpiter, estes em Libra. Os aspectos tensos em signos cardinais indicam a volatilidade presentes em qualquer relacionamento.

 

Lua Cheia de Libra, 16/10/2016, 01h23′, Brasília- DF

 

Lembrando que Júpiter, também em aspecto na Lua Nova, pode expandir qualquer condição que se encontra a relação. Se ela for boa, há oportunidade para ficar melhor; se estiver ruim, então é provável que o desgaste gere ruptura, marcada pela Lua Cheia com Urano. O sentido construtivo das relações é fortalecido pelo dispositor da Lua Cheia em Capricórnio. Sua conjunção a Plutão também reforça o caráter controlador, obsessivo, destruidor e transformador que muitas vezes passamos com o outro. Não é fácil encararmos nossa alma, mas mais difícil ainda é sua aceitação, através da metade inconsciente que o outro expõe. Podemos negar ou negligenciar, acreditar no que queremos e ainda arrumar desculpas (quadratura Mercúrio e Júpiter), mas somente quando encaramos a condição como ela é temos como assumir o poder que aquilo nos traz e utilizá-lo em outros setores de nossas vidas (Plutão e Marte em Capricórnio), definindo melhor quem somos, firmando nossa individualidade, e refletindo tal condições nos relacionamentos presentes e futuros. Felizmente, este Marte dispositor recebe um sextil de Netuno. Sempre podemos contar com nossa intuição e o lado mais sensitivo para nos guiar. Quando há intimidade, somos capazes de sentir que algo na relação não vai bem. Cabe a nós a escolha de transformar ou não tal questão.

 

Por fim, podemos encerrar este ciclo refletindo outro pensamento. “O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser”. Vulgo dizer que o amor é lindo independente da situação e que qualquer coisa que seja feia, não é amor. Mas concordo que o amor fica mais lindo, quando nos é consciente esse caráter transformador. Que assim caminhem as relações neste novo ciclo.

 

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Sobre o Autor

Astrólogo formado pela Humaniversidade e Gaia - Escola de Astrologia. Atualmente colabora com horóscopo e matérias para o portal da revista Glamour.

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