Cosmologia e Prática Divinatória em Plotino

11 de janeiro de 2011 Artigos, Diversos: a partir de janeiro/2010 Comentários desativados em Cosmologia e Prática Divinatória em Plotino

O filósofo Plotino, considerado por alguns o último dos grandes filósofos da língua grega antiga, do século III d.C., é conhecido por ser um neoplatônico que, absorvendo e transformando as doutrinas de Platão, influencia toda a corrente do misticismo ocidental. Sua obra, organizada por seu aluno Porfírio, é composta de seis partes, cada uma com nove tratados, de onde se deriva o nome Enéadas1.

É bem sabido que a ontologia de Plotino permite um certo tipo de prática de tirar augúrios2. Em alguns trechos de sua obra3, Plotino procura justificar e fundamentar a prática de augúrios dentro de sua concepção de totalidade. O objetivo deste artigo é apresentar os argumentos que orientam esta discussão, especialmente no contexto das influências – platônicas e estóicas – que Plotino apresentava. No entanto, para compreendermos de modo apropriado esta discussão, precisamos ter em mente a concepção de totalidade proposta por Plotino, bem como sua cosmologia e a participação do mundo material na estrutura de seu cosmos. Apresentaremos para começar e de modo superficial a estrutura da totalidade em Plotino, as famosas três hipóstases, a do Uno (hen), a do Intelecto (nous) e a da Alma (psykhe). Depois, apresentamos as discussões sobre cosmologia e divinação, especialmente as críticas e defesas da prática da Astrologia de sua época.

Peço aos leitores, de início, uma dose de compaixão para compreendermos a estrutura da totalidade em Plotino. Trata-se de uma visão do todo bastante diferente da que se tem hoje em dia, e precisamos de calma e de paciência para circundar por toda sua estrutura e compreendê-la de forma salutar. Plotino divide a totalidade em três camadas, as quais chama de hipóstases4, hierarquicamente organizadas.

Inicialmente temos a hipóstase superior, aquela que ele chama de Uno, às vezes de Belo ou Bem, a própria fonte de toda realidade e para o qual tudo procura retornar. Em verdade, não há um nome adequado ao que é puramente Simples, e todos os atributos possíveis não o descrevem rigorosamente. Plotino está nos apresentando, pela primeira vez, a via negativa de descrição da realidade suprema, que será chamada posteriormente de Teologia Negativa. Trata-se de um método de descrição de Deus que nega todo e qualquer atributo: Deus não é nem isso nem aquilo, está além de toda linguagem, de toda descrição. Nesse sentido, o Deus supremo em Plotino é um puramente Simples, inefável e impensável, já que todas essas características eliminariam a possibilidade de ele ser totalmente simples. Mesmo assim, Plotino procura descrevê-lo, mais para nosso esclarecimento e como ajuda em nossa jornada rumo a Ele, do que como forma de realmente dizer o que seja o Uno. Ora, poderíamos nos perguntar, e com acerto, por que Plotino procura descrever o Uno, tema de todos os nove tratados da sexta Enéada, já que Ele é indizível. Em verdade, o próprio Plotino nos diz, os seus discursos são mais para nos inspirar a conhecê-Lo do que, propriamente, descrevê-Lo. O nosso filósofo, ao falar da realidade suprema, está querendo nos transportar até Ela, nos incitar a trilhar o caminho de volta para casa, saindo da realidade em que nos encontramos. Apenas o Uno é totalmente livre, já que Ele é auto-criado, e permanece em sua completa felicidade, inalterado. Dele dependem todas as coisas, mas Ele não depende de nada.

1 Que contém nove. Temos ao todo 54 tratados. Porfírio os organiza tematicamente em seis volumes, mas também indicou a ordem cronológica em que Plotino os escreveu. A forma em que se costuma citar Plotino é a seguinte: primeiro um número romano indicando em qual Enéada se encontra o texto citado; depois, um número arábico para assinalar o livro dentro da Enéada já citada; depois um número entre [colchetes] para indicar o número do livro na ordem cronológica indicada por Porfírio; outro número arábico para indicar o capítulo do livro e, por fim, às vezes, os números das linhas dentro do capítulo, e em seguida o título. Como exemplo, se desejo indicar as cinco primeiras linhas do segundo capítulo do terceiro livro da segunda Enéada, que na ordem cronológica é o livro 52, temos o seguinte: II, 3 [52], 2, 1-5 Se os astros são causa.

2 Estaremos aqui usando como sinônimos a expressão ‘tirar augúrios’ e o termo ‘divinação’. A Astrologia é uma das formas de divinação da antigüidade que ganharam maior respeitabilidade e estudos filosóficos: dos estóicos, dos pitagóricos e dos neoplatônicos. Para um bom estudo da Astrologia no mundo grego, ver BOUCHÉ-LECLERCQ, A. L’Astrologie grecque. Paris: Culture et Civilisation, 1899.

3 Plotino consagra um tratado inteiro para a questão da Astrologia, o 52o em ordem cronológica e organizado por Porfírio em II,3 Se os astros produzem.. No tratado III,1 [3] sobre o destino, a Astrologia é um dos temas centrais dos argumentos, e aparece especialmente nos capítulos 5 e 6. No tratado intitulado Problemas sobre a alma II, IV,4 [28], temos uma longa discussão sobre a Astrologia nos capítulos 30 – 45, e também aparece uma citação à harmonia musical das esferas nos capítulos 6 – 8. No 6o capítulo do Sobre a providência 2, III,3 [48] e também no 13o capítulo do Contra os gnósticos II,9 [33] a discussão sobre Astrologia é explícita.

4 O termo quer dizer substância, aquilo que tem realidade por si próprio e não se modifica em relação aos acontecimentos acidentais.

Desta sua perfeição, há um resíduo que emana, há um supérfluo que flui e procede para formar outra realidade. Trata-se da segunda hipóstase, chamada de Intelecto ou Nous em grego. Vale salientar que o Uno não perde nada ao emanar de si a segunda hipóstase: Ele permanece em seu ato perfeito e impassível de sua plena felicidade. É no nível do Intelecto que há os números e as Idéias ou Formas platônicas, as realidades supremas das quais todas as realidades sensíveis são cópias5. É este o nível do Ser, da Vida e do Pensamento. O Uno não pode ser complexo e por isso não pode voltar-se sobre si mesmo e pensar. Já o Intelecto pode, e esse é um de seus atos, voltar-se sobre si e pensar. Em verdade, o ato principal do Intelecto será a contemplação do Uno, e posteriormente ele passa a refletir sobre si mesmo.

Da atividade do Intelecto, nasce e emana outra hipóstase, a Alma. Somente nesta é que aparecem o movimento e o tempo, já que no Intelecto tudo estava em repouso, todas as Formas conhecendo as outras por virtudes de si mesmas. Já na Alma, há o princípio do movimento vivo de todas as coisas sensíveis, cujo controle está ao encargo da Alma. Pela capacidade da Alma de pensar, ela contempla o Intelecto e através deste, ela pode chegar a voltar para o Uno, supremo desejo das hipóstases inferiores. Está ao encargo da Alma, também, controlar e vivificar as realidades sensíveis, o mundo material: o nosso mundo que vemos e ouvimos pulsa e se move a partir das ordens da Alma universal.

Para entrarmos na problemática da divinação em Plotino, temos que sublinhar três traços das hipóstases, especialmente da hipóstase da Alma, a sede da noção de destino e providência. Em primeiro lugar, (1) devemos ter em mente que as duas hipóstases inferiores têm atos duplos. O Nous, Intelecto, por um lado, volta-se para o Uno e o contempla, e tal é sua suprema ação. No entanto, o Nous tem também uma atividade reflexiva, ele se pensa a si mesmo6, como já dissemos. Será a partir desse segundo ato do Intelecto, o de pensar a si mesmo, que vai ocorrer a emanação da hipóstase da Alma. A Alma, por sua vez, contempla o mundo inteligível e o seu ato maior também é buscar a hipóstase que a precede. No entanto, a Alma também se volta para o mundo sensível, cuida dele e o organiza, sempre tendo como modelo o mundo perfeito do inteligível7. Assim, Plotino define a alma como amphibios, com uma vida dupla, pelo seu pertencimento ao mundo inteligível e ao mesmo tempo pelo seu cuidado com o mundo sensível. Porém, vale perguntar: o que é o mundo sensível para Plotino?

Desta forma, outro ponto importante a ser levado em conta, (2) trata sobre o estatuto ontológico do mundo sensível. Em verdade, o próprio mundo sensível em Plotino não chega a constituir uma realidade e isso nos leva a salientar o fato de que nosso filósofo não é um dualista, não separa o mundo em corpo e alma. Em verdade, todas as hipóstases formam uma diferenciação gradual entre elas, não há rompimentos na totalidade. Plotino é um filósofo da unidade, e ele não aceita divisões em sua estrutura geral. Trata-se mais de um dégradé, de uma diferenciação gradual, como uma chama e seu halo de luz: a escuridão ao redor do halo de luz é a matéria8. Ela, em verdade, é qualificada em momentos como o próprio não ser9. Plotino vai contra Aristóteles em seu tratado II, 4 [12], Sobre a Matéria, afirmando que hyle, matéria, é pura privação, steresis, e não uma potência que pode ser atualizada. Vale ainda ressaltar que há uma diferença entre matéria (hyle) e corpo (soma). Como vemos no tratado 12, na medida em que a pura matéria não tem qualidade nenhuma (apoios)10, ela também não poderá ser corpórea. Nenhuma das propriedades que são apreendidas pelos sentidos pode lhe ser atribuída, e ser corpóreo é um deles. O corpo já é uma determinação da matéria, e por isso ela mesma não pode ser identificada ao corpo.

Outra imagem que Plotino utiliza para descrever a matéria é a de um espelho11 que não tivesse forma e que simplesmente refletisse as formas perfeitas do inteligível com a mediação da Alma. Desejo sublinhar que a matéria é inferior a todas as outras hipóstases, totalmente passiva e, por isso mesmo, não pode exercer nenhuma ação sobre uma hipóstase superior. Assim, caso a Alma não deseje, a matéria não poderá ter nenhuma influência sobre ela, podendo permanecer em seu ato superior, a contemplação do inteligível, que, em verdade, lhe confere maior liberdade e felicidade.

5 Em resumo, podemos dizer que de acordo com Platão, a realidade sensível é uma cópia do mundo inteligível onde se encontram as Formas ou Idéias perfeitas. Para um conjunto de realidades com um mesmo nome, haveria uma única Forma que dá conta do Ser daquele conjunto. Assim, para todas as cadeiras há uma única idéia de cadeira que concentra as características puras da cadeira.

6 Vê-se claramente a influência aristotélica em Plotino ao lidar com a hipóstase do Nous, ver livro Lambda (12) da Metafísica.

7 “Mas, enquanto olha o que vem antes dela, a Alma pensa; enquanto olha a si mesma, ela se conserva; enquanto olha o que vem depois dela, ordena, dirige e comanda essa realidade.” IV, 8 [6], 3.

8 IV, 3 [27], 9, Problemas sobre a Alma I

9 II, 4 [12], 16, Sobre a matéria; III, 4 [15], 7, Nosso daimon guardião; III, 6 [26], 7, A impassividade dos incorpóreos (este último texto é o mais explícito sobre a negação do ser à matéria).

10 II, 4 [12], 8, Sobre a matéria.

11 III, 6 [26], 9 A impassividade dos incorpóreos.

Por fim, saliento um terceiro aspecto do sistema plotiniano. (3) Uma das formas de compreendermos a hierarquização do mundo em Plotino é assinalarmos o fato de que quanto mais alto se sobe na hierarquia do mundo, mais se alcança bondade, liberdade e simplicidade12. Assim, o puramente livre, simples e bom é somente o Uno, ou o Bem, aquele que está além do ser13. Já o nous, hipóstase em que ocorre o ser, contempla em seu ato a hipóstase superior – perdendo em liberdade frente ao Uno – e as realidades que ali se encontram são chamadas de um-muitos14 – perdendo, assim, em simplicidade. A Alma, por sua vez, é caracterizada em seu ato como contemplando o Intelecto, visando por fim o seu retorno ao Uno. Mesmo mantendo certa unidade, a Alma contém em si muito mais multiplicidade do que o Nous. Já a matéria, por outro lado, não poderia entrar nessa descrição, mas o próprio Plotino vai qualificá-la como o princípio do mal, totalmente complexa e de forma alguma independente15.

Nesse sentido, todas as hipóstases inferiores ganham liberdade na medida em que se voltam para a hipóstase superior. O desejo maior da Alma é contemplar o Nous e deste é contemplar o Uno, e somente neste ato que eles ganham liberdade.

COSMOLOGIA EM PLOTINO

A prática divinatória a que Plotino mais faz referência é a Astrologia, tendo até mesmo um único tratado somente para debater as suas questões16. É necessário, então, termos claro que concepção de cosmos17 tem Plotino em suas discussões com os astrólogos de sua época18. De acordo com o seu tempo, Plotino vai defender a superioridade dos planetas, seres vivos e divinos, dotados de alma. Plotino toma como pressuposto que o céu é a parte mais importante do universo19, e com certeza os seres ali presentes serão também superiores. Nosso filósofo está na esteira das grandes cosmologias de Platão20 e Aristóteles que defendiam a divisão entre o mundo sublunar e supralunar e, por toda parte, ao falar do universo visível, Plotino pressupõe que ele é composto de alma e de corpo e é um grande deus vivo. No entanto, os seres visíveis supralunares são considerados deuses de segunda instância já que estão, mesmo que o mais perfeitamente, no mundo sensível e têm, a seu modo, corpo. "É melhor afirmar <…> que os deuses no mundo sensível até a Lua, os visíveis, são deuses de segunda categoria, que vêm depois e correspondem àqueles deuses do inteligível"21.

Seguindo criteriosamente a linha do Timeu22 de Platão, os planetas são compostos de um corpo especial, que deve ser adequado (prosphoron) à natureza dos deuses: uma matéria que os possibilite ser calmos e moderados. Plotino vai criticar o quinto elemento aristotélico, o éter, defendendo que os seres supralunares são compostos de um tipo de fogo especial: "… mas o fogo no céu é sereno e calmo, adaptado à natureza dos astros"23.

Vamos, a partir dessa descrição geral de sua cosmologia, entrar em uma análise mais detida dos argumentos que fundamentam e criticam a Astrologia. Um dos pontos fundamentais para a problemática da Astrologia em Plotino baseia-se no fato de os planetas e os astros em geral serem deuses e viverem uma vida mais perfeita que a nossa. O linguajar astrológico de sua época18 estava repleto de citações sobre alterações no estado de humor dos planetas de acordo com o seu posicionamento no céu e em relação aos outros deuses visíveis. " que os planetas dão os supostos benefícios não por estarem alegres com os que recebem , mas que eles mesmos se encontram alegres ou infelizes por causa do lugar <em que se encontram em seu> curso, e de novo, estão em um estado de espírito (dianoias) diferente quando quer que se encontram no Zenith ou no declínio."24 Todos os primeiros seis capítulos do II, 3 [53], Se os astros produzem são para criticar idéias como essa, defendendo, teologicamente, que os astros não podem estar sujeitos a tamanha mutação emocional, dependentes do local celeste em que se encontram. Em verdade, os astros, como seres vivos e divinos que são, são muito mais serenos e estão muito mais preocupados com as hipóstases superiores do que com nós, seres sublunares. Dessa forma, uma primeira crítica de Plotino em relação aos astrólogos trata sobre a impossibilidade de basear a prática da divinação astral em modificações de humor que os deuses teriam para conosco.

12 Sobre esse aspecto, ver REALE, História da filosofia antiga, p.440-442.

13 Tal expressão vem de Platão, na República 509b quando ele está analisando as características da idéia de Bem. Platão ali usa a expressão epekeina tes ousias, além da essência.

14 Ver, por exemplo, V, 3 [49], 11 e também VI, 7 [38], 15, em que Plotino trata da característica do Nous procurar imitar a unidade do Uno, porém se desdobrando em muitos..

15 I, 8 [51] A natureza e a origem do mal.

16 II, 3 [52] Se os astros produzem.

17 Os tratados que lidam mais explicitamente sobre cosmologia em Plotino são os três primeiros da segunda Enéada, em especial o Sobre o Céu II, 2 [40]. No entanto, encontramos várias referências importantes em diversos tratados, mas em especial na quarta Enéada, que de acordo com Porfírio, editor de Plotino, trata da hipóstase da Alma. Ver especialmente os capítulos 30 – 45 de IV, 4 [28], Problemas sobre a Alma II.

18 Muitos autores defendem que provavelmente Plotino está dialogando com Ptolomeu, no seu livro Tetrabiblos. No entanto, havia muitos outros textos de Astrologia em sua época, os mais famosos sendo o de Manílios, Astronomica, e o de Vettius Valens, Antologia. Ao próprio Porfírio é atribuído uma introdução ao Tetrabiblos de Ptolomeu em que são reunidos várias técnicas astrológicas além das de Ptolomeu.

19 Seguimos aqui as análises de DUFOUR em seu comentário sobre o tratado II, 1 [40], Sobre o Céu, p. 105. O problema central desse tratado é sobre a sobrevivência individual dos elementos que compõem o céu.

20 No Timeu 40d-42e, no discurso que o Demiurgo faz aos seres celestes após criá-los diz que somente ele pode desatar os nós que compõem(plural) o seu corpo, e portanto eles serão eternos.

21 III, 5 [50], 6, 15, Sobre o Amor.

22 Ver especialmente o trecho do Timeu em que o Demiurgo forja os planetas (38c-40c) e lhes dirige um discurso (40d-42e).

23 II, 1 [50], 4, 14, Sobre o céu.

Um outro ponto da crítica de Plotino também incide sobre a forma de se falar sobre a prática astrológica. Grande parte do linguajar utilizado para descrever a relação entre os seres celestes e os acontecimentos da terra baseava-se na influência física dos planetas sobre o mundo sublunar. Ptolomeu25, astrólogo importante da época, usa um linguajar aristotélico para falar sobre as influências dos planetas: eles teriam as qualidades relativas aos elementos – quente, frio, seco e úmido – e, através das posições relativas que ocupassem, tais e tais efeitos seriam produzidos na terra e também no caráter humano. "O poder ativo da essência do Sol está no aquecer e, em certa medida, no tornar seco <…> a maior parte do poder da Lua consiste em umidificar <…> Saturno, principalmente esfria e, também, moderadamente, torna seco"26

No entanto, Plotino leva a sério a distinção entre alma e matéria. Ele não pode aceitar que elementos anímicos, como a virtude e o pensamento, possam ser influenciados pelo mundo físico, já que tais elementos seriam superiores à matéria. Apesar de não descartar de todo que existam influências físicas dos planetas sobre a terra, ele não aceitará que os astros governem toda a realidade física, nem, muito menos, que eles tenham alguma ação sobre as realidades anímicas. Como já assinalei acima, a hipóstase da Alma é superior ao mundo material, e Plotino não permite que alguma influência física determine de alguma maneira a Alma. Em termos físicos, os astros serão os co-operadores27 (sunergounton) dos acontecimentos terrestres, mas não dos anímicos, na medida em que a Alma não queira se misturar com as coisas corpóreas. Em verdade, o mundo físico irá influenciar a alma no momento em que esta assim o desejar, e somente naquela parte da alma que pode receber influências. Pois, em verdade, a alma se relaciona com o corpo por desejo próprio, e, por isso, algo nela deve poder receber influências corpóreas. No capítulo 10 do tratado 52, Se os astros produzem, Plotino vai dizer que a alma, ao chegar ao mundo corpóreo, deve poder ser influenciada por esse mundo em alguma parte de seu ser.

Temos, portanto, a afirmação em Plotino de que os Planetas influenciam fisicamente o mundo físico, e não o mundo anímico. No entanto, ao descrever os limites das influências físicas dos planetas, Plotino vai sublinhar que aquilo que sai de corpóreo dos planetas não é da vontade deles. A vontade dos seres celestes é contemplar as hipóstases superiores, e tal é expresso em seu movimento matemático ao redor do céu. A vida feliz e perfeita dos planetas está em justamente eles não estarem voltados para os acontecimentos sublunares, mas no fato de eles manterem sua atenção voltada para as hipóstases superiores da totalidade. Sendo o céu a parte mais importante do universo físico, seus componentes participam do movimento da totalidade para cumprir os desígnios das hipóstases superiores, especialmente o desígnio da Alma. O real desejo dos planetas, como seres divinos que são, é agir de acordo com o movimento da totalidade, e isto se expressa especialmente na contemplação das hipóstases superiores. No entanto, mesmo nesse ato sublime, algo de corpóreo lhes sai, sem estar vinculado à sua vontade, configurando e auxiliando a determinar os movimentos do corpo do mundo.

Plotino também vai defender o determinismo como os estóicos o faziam, restrito ao mundo material. De modo geral, podemos dizer que o estoicismo defende o encadeamento das causas28, fato que garante que cada acontecimento esteja determinado pelo seu antecedente. "No Sobre a Providência, Crisipo diz que destino (heimarmene) é uma eterna ordenação natural do todo em que as coisas seguem e sucedem às outras e que o encadeamento é imperecível"29. Tal visão determinista corroborava certa visão astrológica que também defendia a total dependência das realidades sublunares para com os poderes supralunares.30

24 II, 3 [52], 1, 13-17.

25 PTOLOMY. Tetrabiblos. Cambridge: Harvard Univesity Press, 1940.

26 Tetrabiblos, Livro 1 cap. 4 Of the power of the planets, 17.

27 Ver especialmente os seis primeiros capítulos do tratado 52, Se os astros produzem.

28 ten ton aition epiploken. Plotino utiliza termos técnicos do estoicismo em III, 1 [3] Sobre o destino, especialmente para refutar que as realidades superiores estariam também determinadas pelo encadeamento das causas.

No entanto, tal visão estóica, além de aniquilar a liberdade humana, também subordinava as hipóstases superiores a determinações do mundo físico. Há no homem, de acordo com Plotino, algo que não se reduz ao corpóreo, há algo de nosso em nós mesmos, algo que é mais propriamente chamado de nós31. No capítulo 9 do tratado 52, há uma citação do Timeu em que as almas dos seres mortais seriam compostas pelos planetas-deuses32. Plotino vai assinalar como tal texto pode corroborar a visão astrológica da dependência material dos homens para com os planetas. No entanto, tal concepção nos abandonaria à condição de pedras que rolam33 e, portanto, ele vai criticá-la: "o que restaria, então, de nós? Resta aquilo que somos verdadeiramente, o "nós" que a natureza nos deu para dominar as paixões"34. Esse "nós", em sua última instância, identifica-se com o próprio Uno, sendo, portanto, plenamente livre e feliz. Nesse sentido, nada que venha dos astros pode nos determinar em nossa verdadeira natureza, nenhuma força externa pode direcionar aquilo que verdadeiramente somos, pois o Uno é plenamente livre.

Por isso o homem que vive subordinado aos princípios corpóreos, aquele que se rende à força dos desejos, esse não tem liberdade alguma, chegando a seguinte fórmula: quanto melhor eticamente é um homem, mais livre ele é, quanto pior, menos liberdade ele tem, e mais determinado pelas condições materiais ele é. Assim, a resposta de Plotino para a pergunta sobre se os astros influenciam fisicamente os homens, seria também uma pergunta: que tipo de homens? Pois os homens determinados pelo mundo físico serão também determinados pelos planetas, na medida em que os planetas são co-operadores na construção do mundo físico. No entanto, para os homens que estão voltados para as hipóstases superiores, nada, além destas, pode determiná-los.

DIVINAÇÃO EM PLOTINO

O que resta, então, da divinação? Por um lado, temos a influência corpórea determinando parcialmente somente o mundo corpóreo. Por outro, como vimos, Plotino critica duramente o linguajar da prática divinatória de sua época, já que não aceita o linguajar acerca de deuses voluntariosos. Mesmo assim, ele nos apresenta uma outra forma de compreender a divinação, adaptada ao seu sistema da totalidade. Em diversos momentos, Plotino vai afirmar que os astros indicam, anunciam (semainein)35, mas não são causa nem produzem (poiein) as realidades. Como os pássaros, sua atividade como sinais é por acidente, e o homem pode aprender a ler o que eles indicam. "Tudo, pois, está cheio de signos, e sábio é aquele que aprende uma coisa de outra."36 Vejamos, então, quais são os argumentos que possibilitam a divinação astral compreendida como leitura analógica do céu.

Dois conceitos precisam ser explicitados: o de simpatia universal e o de analogia. A compreensão de um universo em que suas diversas partes são simpatéticas umas com as outras é baseada em uma profunda visão orgânica do universo. Sendo o cosmos um grande ser vivo, suas partes sentem as outras. Esta é uma forma de tornar próximas realidades que estão fisicamente afastadas, mas interiormente conectadas. O termo sympathia tem uma relação forte com os étimos que o compõem: experimentar em conjunto. Trata-se de uma visão estóica do universo, em que defendia que tudo está conectado a tudo. Nesse sentido, as realidades ocorrem coordenadamente não porque uma está influenciando a outra, mas porque ambas estão respeitando uma ordem que é superior a elas. Por essa perspectiva, certas almas humanas poderiam ser compreendidas a partir da contemplação dos astros, pois tanto umas quanto as outras estão subordinados às mesmas realidades, às hipóstases superiores.

29 LONG, SEDLEY. (org.) The Hellenistic philosophers. citação de Gellius em 55k, p. 336.

30 Acerca da discussão sobre o estoicismo e compreensões astrológicas ver DUHOT, Jean-Jöel. La conception Stoïcienne de la causalité. Paris: Vrin, 1989. Ver também BOUCHÉ-LECLERCQ, A. L’Astrologie grecque. Paris: Culture et Civilisation, 1899, especialmente o primeiro capítulo.

31 Os termos que Plotino usa e que normalmente são compreendidos como livre arbítrio humano são to par’hemon e to eph’hemin.

32 Ver o discurso do Demiurgo para os planetas-deuses 40d-42e.

33 III, 1 [3], 5, Sobre o Destino.

34 II, 3 [52], 9 Se os astros produzem.

35 Ver especialmente os tratados 3, 28, 29, 33 e 52.

36 II, 3 [52], 7.

A imagem lapidar utilizada por Plotino é a de cordas que vibram em conjunto por estarem na mesma ressonância:

"Enfim, os astros vivem uma vida feliz contemplando essa Vida (mundo inteligível) por suas próprias almas. Pela tendência de suas almas à unidade e pelo brilho que se expande para todo o céu, eles são como uma lira cujas cordas, vibrando por simpatia37, cantam um canto naturalmente harmonioso"38.

Aparentemente, não há nada que toque uma corda na outra, mas pelo simples fato de suas próprias naturezas, quando uma ressoa, a outra necessariamente também ressoa. Essa inter-relação à distância vem justamente da vida (zoe) partilhada por todas as partes do todo. No capítulo 41 do tratado 28 Sobre os problemas da Alma II, Plotino se refere à teoria da simpatia para fundamentar a eficácia da oração: "a oração produz seus efeitos por que uma parte do universo está em simpatia com outra parte, como em uma corda estendida, em que a vibração (kinesis) vinda de baixo se propaga para o alto."

A teoria da simpatia universal se remete à teoria estóica, também citada por Plotino, que todas as partes, assim como também o todo, estão em uma única respiração (sympnoian mian), todo ele respira junto, em um só sopro. Apesar de eles terem cada um uma função específica, como membros do corpo, para aquele que pode ler, serão como signos que indicam o estado geral da pessoa. Como em um corpo, os membros do universo têm uma função específica e agem de acordo com suas naturezas e, ao mesmo tempo, cooperam com o todo e também uns com os outros. Assim como podemos a partir dos olhos de uma pessoa concluir como vai a sua alma (mas nem por isso dizemos que seus olhos influenciaram sua alma), nós também podemos, a partir da configuração física dos planetas ao redor da terra, concluir como vai a Alma do Mundo. Dessa forma, os astros seriam partes importantes do universo, como os olhos são do corpo, e, a partir da contemplação deles, podemos inferir – como por sinais e por analogia – o que se passa na alma.

Vale uma ressalva sobre o que Brehier39 vai afirmar sobre tal conceito. Ele diz que a simpatia universal estóica vai influenciar também a forma como Plotino vê a hipóstase do inteligível. A simpatia que vemos no mundo sensível é a cópia possível do total entrelaçamento entre as idéias na hipóstase do nous. A simpatia é uma rigorosa dependência mútua que não se baseia em ligações mecânicas entre as partes, mas sim sobre certas semelhanças. Estas semelhanças são apreendidas pela analogia, pelos sinais que povoam o mundo do homem que os sabe ler.

Outra imagem a respeito da organicidade do cosmos é a do dançarino universal. Como vimos pela imagem da lira, a simpatia dos estóicos está relacionada com a teoria da harmonia universal, e a imagem do dançarino interliga claramente essas duas teorias.

"Como a revolução do céu não é fortuita, mas guiada pela razão que está no Vivente (inteligível), é necessário que haja uma harmonia entre os agentes e os pacientes, e uma ordem na relação de suas partes. Para cada momento da revolução universal há uma disposição diferente das coisas que lhe são subordinadas, elas são como numerosos dançarinos associados por uma mesma dança. Nas danças a que assistimos, segue-se, a cada movimento do coro, as modificações do canto dos instrumentos, que, fora do coro, servem à dança, as flautas e as vozes dos cantores, e outros instrumentos se relacionam"40

Essa imagem nos mostra uma outra forma de os elementos do universo interagirem sem, no entanto, estarem uns subordinados a outros: todos os elementos sensíveis estão subordinados às hipóstases superiores. Tiramos o linguajar da influência entre os corpos, que deturpava as concepções cosmo-teológicas de Plotino, e introduzimos uma outra forma de descrever o mesmo fenômeno: a possibilidade de se tirar augúrios a partir da contemplação do céu. A partir de uma compreensão da totalidade e da harmonia universal que coordena os movimentos celestes, podemos, por analogia, descobrir como vai e como se caracterizam outros elementos que não somente os sensíveis.

Para entendermos esta última frase, precisamos ainda tratar da noção de analogia41 e de como ela é fundamental na possibilidade da prática da divinação. Temos já acertado, de acordo com o pensamento de Plotino, que os astros agem parcialmente sobre o mundo físico, apesar de não ser esta a sua atividade principal. Temos também garantido que a partir de uma certa leitura das posições e dos movimentos dos elementos que constituem a totalidade, podemos descobrir o que acontece e em que estado se encontram outros elementos da totalidade que não estão imediatamente visíveis.

37 Esse termo, sympathos kinetheisai, traduz-se literalmente por sendo movidas simpateticamente.

38 IV, 4 [29], 8 Dificuldades sobre a Alma II.

39 BRÉHIER, Emile. La philosophie de Plotin. Paris: Vrin, 1999, p. 90 ff.

40 IV, 4 [28], 33.

41 Sobre analogía, ver CHRÉTIEN, J-L. L´analogie selon Plotin. Les études philosophiques, 3 / 4 – juillet- décembre, 1989.

A partir dessa idéia temos a frase lapidar de Plotino, no começo do capítulo 7 do tratado 5242: "Admitimos que os astros sejam como letras escritas a cada vez no céu, ou escritas de uma vez para sempre, e que se movem e, mesmo cumprindo outras funções, eles têm o poder de significar." No capítulo 5 deste mesmo tratado, Plotino já havia dito que cada uma das partes do todo conflui para a perfeição deste mesmo todo. Como em um animal em que cada uma de suas partes ganha seu sentido e função em vistas da totalidade do animal, também o todo, um gigantesco animal vivo, tem suas partes todas em função de sua perfeição. A noção de analogia é aquela que nos possibilita partir de um plano imediatamente conhecido, como o plano do mundo sensível, e alcançar outros planos não imediatamente conhecidos, como o plano da Alma do Mundo. Assim, a partir da percepção sensível do movimento e posição dos orbes celestes, que são entidades especiais do cosmos físico, podemos, analogamente, conhecer instâncias psíquicas do universo. "[…] Outras partes são como os olhos da alma. E todas as partes estão em simpatia com as partes irracionais. É assim que o animal é uno e que reina nele uma harmonia única. Como, então, essas coisas não seriam sinais por analogia?"43 A partir da organicidade do todo, o conhecimento por analogia será possível, pois podemos acessar um outro plano da realidade a partir de um plano já conhecido.

Termino o texto com uma passagem que parece resumir a posição de Plotino sobre a função da analogia na prática da divinação.

"Em verdade, não é próprio do adivinho dizer o porquê mas somente o que acontece. Sua arte é uma leitura das letras escritas na natureza, declarando uma ordem e nunca desviando para a desordem, ou ainda, nunca desviando do circuito celeste que proclama e traz à luz o que cada indivíduo é e todas suas características, até mesmo antes de elas aparecerem nas pessoas. Pois essas coisas aqui em baixo são carregadas junto com as coisas no céu, e aquelas no céu com essas na terra, e ambas juntas contribuem para a consistência e eternidade do universo, e por analogia, indicam as outras para o observador. […] Talvez esse seja o sentido de que a analogia segura todas as coisas juntas."44

BIBLIOGRAFIA

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WAGNER, M. "Plotinus on the nature of physical reality" in GERSON, L. P. (ed.) The Cambridge Companion to Plotinus. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

42 Se os astros produzem.

43 II, 3, [52] 5.

44 III, 3, 48, 6. A parte final da última frase é retirada do Timeu 31c e 32c.

Sobre o Autor

CNA (Central Nacional de Astrologia)