Como ensinar Astrologia? I

11 de janeiro de 2011 Artigos, Diversos: a partir de janeiro/2010 Comentários desativados em Como ensinar Astrologia? I

Com este texto, inicio uma série de reflexões sobre o ensino e o aprendizado de Astrologia nos quais me baseio mais na experiência como professor de ciências e pesquisador do seu ensino, do que nos meus conhecimentos em Astrologia. Neste primeiro texto, me dedico a discutir o que considero mais importante em qualquer processo educativo e/ou formativo, isto é, qual a nossa concepção de aprendizagem e qual seria desejável implementarmos?

Como pesquisador em Educação, penso que o ensino de Astrologia deve se basear nos mesmos princípios em que deveria se basear o ensino de qualquer “ciência”. Aqui não importa que os astrônomos não a reconheçam como tal, ou ainda, que muitos astrólogos não desejem que ela seja vista assim. O fato é que, se consideramos a Astrologia como um corpo estruturado de “conhecimentos”, seja pela tradição ou pela evolução de novas técnicas, composta por uma série de “idéias-força”, o seu aprendizado (e o seu ensino) estará permeado por teorias de aprendizagem e visões epistemológicas (isto é, como chegamos a conhecer algo).

Do ponto de vista da aprendizagem, o que nos dizem as teorias mais recentes? O princípio estruturante mais conhecido neste campo decorre dos trabalhos e reflexões de Jean Piaget, no período entre guerras. Portanto, não tão recente assim.

Piaget estudou a fundo como as crianças aprendem. Sua conclusão mais importante, que sintetizo de forma um tanto simplista, é que aprendemos todos (não só as crianças) construindo relações entre nossas vivências e idéias anteriores com as novas experiências e conhecimentos. Ou seja, nosso cérebro não é um “balde vazio” para o qual um professor possa “transferir (passar)” o conhecimento.

Outro psicólogo cognitivo importante, David Ausubel, também defendeu idéia semelhante ao afirmar que a coisa mais importante para o ensino é aquilo que o estudante já sabe. O professor deve identificar esse saber e planejar seu trabalho de acordo.

Aqui abro um parênteses para ressaltar (e denunciar até) que a escola talvez seja um dos setores da atividade humana que mais resiste à inovação. Alguém consegue imaginar outra área na qual uma grande “descoberta” de mais de 80 anos, ainda seja aplicada apenas em raríssimas situações? Não é sem motivo que os exames e provões em geral registrem o fracasso da maioria dos estudantes.

Tudo isso para dizer que o primeiro princípio para o ensino da Astrologia deve ser o de partir das idéias dos alunos. As idéias, as concepções e as visões de mundo que já possuímos, inevitavelmente, servirão de âncora, no caso de apresentarem uma relação significativa com o conhecimento anterior, ou de obstáculo, no caso de serem divergentes, às novas idéias. Na pesquisa no ensino de ciências já está mais do que demonstrado que as crianças chegam à escola com idéias muito bem estruturadas sobre diversos fenômenos físicos. Por exemplo, concebem a Terra com uma forma plana, acreditam que os corpos necessitam de força para se movimentar, que a semente é uma miniatura de um planta, que no verão a Terra está mais próxima do Sol, etc. Notem que todas estas idéias contradizem aquilo que a escola quer ensinar.

Na Astrologia como seria? Da minha (pouca) experiência em Astrologia, encontrei perguntas tais como: “mas tu acredita nisso?”, “funciona mesmo?” ou ainda “como pode o planeta X me influenciar?”. Deixando de lado as duas primeiras, mais relativas a uma análise epistemológica,a última pode refletir bem a concepção de Astrologia com que muitos alunos começam a estudar, isto é, a de que ela estaria baseada no estudo da forma como os planetas, as constelações do zodíaco e alguns pontos celestes exercem influência sobre o destino e o comportamento das influenciam. Não é necessário discutir muito essa concepção. Os astrônomos estão repletos de razão ao contestá-la, pelo menos se consideramos como associada a uma influência gravitacional direta. Também não é o caso de fazermosum esforço para “aniquilar” esta idéia da cabeça de nossos estudantes. A pesquisa na aprendizagem também já mostrou que um mau modelo é melhor que modelo nenhum. Isto é, se mostrarmos a não validade desta idéia e nada for construído cognitivamente no seu lugar, o aluno saberá agora menos sobre Astrologia do que antes…

O mais importante é sabermos que qualquer informação sobre a característica de um signo, planeta, casa, etc. tenderá a ser interpretado dentro desse contexto conceitual. A questão, é então, o que fazermos com essa idéia prévia (claro, supondo que queiramos que nossos alunos construam uma visão mais complexa e sistêmica da Astrologia)?

A única coisa que não podemos fazer é ignorá-la. Assim, a primeira tarefa didática de qualquer professor deve ser o de tentar identificar qual a concepção dos seus alunos. Daí em diante, podemos pensar que determinadas ações didáticas teriam maior efeito na construção de uma visão mais avançada da Astrologia.

A seguir, apresento três posturas nesse sentido, sendo quea última, conforme apontam as pesquisas no ensino em diversas áreas, tem mais potencial para promover uma evolução conceitual.

A primeira postura, que já parte do pressuposto de que os alunos têm idéias prévias, seria a de convencer os alunos de que estão errados, mostrando (isto é, contando, falando, fazendo ler, etc.) qual seria a visão “certa” da Astrologia. Fazendo um paralelo com o ensino de ciências, esta postura tem se mostrado pouco eficiente, uma vez que muitas pesquisas relatam que alunos assim ensinados, em geral apresentam, ao final, as mesmas idéias (errôneas). É muita famosa a pesquisa com formandos em química na Espanha que consideravam que os átomos de ouro têm cor dourada! Ou seja, as suas idéias prévias saíram “intocadas” (ou, quem sabe, até reforçadas durante a graduação).

A segunda envolveria refutar as idéias dos alunos. Neste caso, antes de convencê-lo, se tentaria mostrar a inadequação das suas idéias com argumentos bem fundamentados em teorias e dados. Isto é feito em muitas campanhas de “esclarecimento da população” pelos astrônomos e sabemos o seu resultado. A postura de refutar já revela, pelo menos, uma consciência de não subestimar as idéias prévias. Porém, a história da ciência está cheia de casos em que os cientistas não mudaram sua opinião só porque alguém mostrou a sua invalidez lógica ou factual. Isto é, não abandonamos nossas idéias facilmente: sempre há uma certa resistência à mudança conceitual.

Por fim, em um nível mais avançado, estaria a postura de desenvolver as idéias dos alunos. Aqui,os alunos primeiro testariam suas idéias (através de situações didáticas organizadas pelo professor) para só então ser apresentada a eles a nova idéia. Assim, a mudança resultaria de um processo consciente, necessário e desejado pelo sujeito, na qual a nova idéia tem grande possibilidade de se tornar uma nova referência com que os fatos (novos ou já conhecidos) serão agora concebidos. Pesquisadores que estudaram mais a fundo esta questão defendem que uma nova idéia terá mais chance de seguir fazendo parte da estrutura cognitiva de uma pessoa se esta idéia for capaz de explicar as situações que a idéia anterior explicava e as que não explicava (ou falhava), se for mais inteligível e se, além do mais, for frutífera, isto é, se for capaz de explicar novas situações não vislumbradas com a idéia anterior.

Em todas estas posturas está implícito um julgamento epistemológico. Ou seja, a idéia dos alunos tem menos valor do que aquela que queremos ensinar. Isto também tem seus problemas. No próximo texto, fazemos uma discussão desta natureza sobre as diferentes concepções sobre a Astrologia e aí tentamos construir uma postura de aprendizagem coerente com isso. Até lá!

Sobre o Autor

CNA (Central Nacional de Astrologia)