Caio Fernando Abreu: uma literatura de epifanias

11 de janeiro de 2011 Artigos, Diversos: a partir de janeiro/2010 Comentários desativados em Caio Fernando Abreu: uma literatura de epifanias

"Acredito em Deus e em muitas formas do mistério. Sou astrólogo, embora não profissional, há 20 anos. Tenho uma curiosidade imensa de saber por que estou vivo, o que significa o céu, o que significa morrer. Portanto, é natural que em meu trabalho estejam presentes todas essas ânsias filosóficas exaltadas. Muitas vezes o que torna digna a vida de um homem é o fato de ele olhar para o céu e dizer "Meu Deus, que coisa imensa…" E perguntar: "Por que eu estou aqui" Toda forma de criação artística é uma maneira de procurar essas respostas."
(Caio Fernando Abreu)

Para entrar no clima de Caio F. escuto Erik Satie, que ele adorava, e observo seu mapa astrológico, feito pelo próprio, em meio a papéis datilografados de uma velha carta. Do mapa deste virginiano, artesão perfeccionista da palavra, que dizia escrever para organizar o inorganizável caos, emerge uma onipresente marca d’água: como os caminhos que faz este elemento, rumo à profundidade, como a emoção indelével que Caio deixa impressa em nós, seus leitores e amigos. Não por acaso suas configurações astrais reiteram o simbolismo aquático, que tem múltiplas conotações ligadas aos estados anímicos e ao mundo dos sentimentos, vividos intensamente na vida e na obra. Caio queria ser um mago, como ele mesmo falou em uma de suas primeiras entrevistas. Queria ser o que foi: mago, xamã, inspirado encantador de serpentes e operador de metamorfoses, sábio transmutador a tanger com seu condão aquele ponto exato em nós, nos despertando e, não raro, nos perturbando, instigando a ir mais fundo, além do ponto.

O interesse pela metafísica, pelo esoterismo, pelas filosofias orientais e pela astrologia integrava sua experiência pessoal e era vivenciado com respeito e reverência. Caio foi um profundo conhecedor da astrologia e astrólogo altamente intuitivo, compartilhando sua visão através de seus textos. Em Caio, literatura e vida não se descolam, andam juntas, caminho que se faz ao caminhar. O escritor utiliza elementos simbólicos, mitológicos e principalmente astrológicos em seu trabalho, ora como simples referência, ora como vetor na construção ficcional, de forma deliberada. O livro Triângulo das águas se destaca dos demais por apresentar uma estrutura narrativa norteada por princípios astrológicos. Através do simbolismo dos signos de Água — Câncer, Escorpião, Peixes –, relacionados a cada um dos três contos que constituem a obra, é representado o processo de transformação interior de seus personagens: seres à procura da verdade e de um sentido para suas existências sufocadas pela pressão urbana e pela solidão.

Na mesma carta de 20 junho de 1988, em que me enviou seu mapa, Caio comenta a intenção de escrever outros livros usando os elementos astrológicos: “Ando com uma longa história na cabeça. A se chamar 360 Graus. Queria dividi-la em capítulos, assim: 30 graus (o semi-sextil), 60 graus (o sextil) e assim por diante. É uma história de amor, claro. Na verdade ainda não decidi se será 360 ou 180 graus. Estou naquela fase de anotar e ler coisas, à espera de que a Vida (essa senhora tão temperamental) me dê mais alguns – digamos – subsídios. Tenho para mim que ela é quase, talvez, a “grande obra”. Não sei se é um livro só ou parte de um, como o Triângulo das aguas. Era um projeto antigo meu: três histórias para os signos de Água, três para o Fogo e assim por diante — até completar a mandala dos 12. Quem sabe consigo?” Esse é mais um dos tantos projetos bacanas que ficaram espalhados por anotações em guardanapos, cartas e diários, sem tempo de realizar.

A literatura de Caio — com seu mix bem temperado de amores, sexo, viagens, cidades, drogas, psicanálise, meditação, astrologia, filosofia oriental, candomblé, tarô, cultura pop, poemas, filmes & canções — mostra sua trajetória pessoal na busca de sentido e de revelação e, ao mesmo tempo, propõe ao leitor um convite para embarcar em sua própria jornada de busca de autoconhecimento, de significado da existência, de crescimento e de transcendência. É impossível ler Caio Fernando Abreu e manter aquela “mesma velha idéia formada sobre tudo".

* astróloga, autora do livro "Astrologia o Cosmos e Você", mestranda em literatura brasileira (UFRGS)

1) ABREU, Caio Fernando. In: ABREU, Kil. Entrevista: “Eu quero biografar o humano de meu tempo”. O Estado de São Paulo, São Paulo, 27 ago. 1996. Esta entrevista foi realizada em setembro de 1990, permanecendo inédita até sua publicação em 1996.

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